Muito além do estilo


Julio Neves e Pablo Slemenson, Parque Cidade Jardim, São Paulo, 2008.
shoppingcidadejardimjhsf.com.br 

Por Luís Pompeo

Às margens do rio Pinheiros, o empreendimento Parque Cidade Jardim é um ícone do urbanismo paulistano do novo século. O projeto, dos arquitetos Júlio Neves e Pablo Slemenson e incorporado pela JHSF, retoma a tipologia de edifícios de uso misto na cidade, tão comuns em meados do século passado e que haviam perdido espaço nas últimas décadas. Suas torres residenciais se apoiam sobre um centro comercial formado por lojas, restaurantes, academia de ginástica, cinema e livraria, junto a torres de conjuntos comerciais. No entanto, essa programática comum aos edifícios cinquentenários e ao novo empreendimento é interpretada de maneira distinta pelos seus arquitetos e incorporadores, para muito além do estilo arquitetônico, revelando uma transformação da visão de cidade de uma elite nesse período.

Exclusivo e opulente, o Parque Cidade Jardim almeja ser uma cidade em si; um local onde endinheirados podem atender todas as suas necessidades diárias mais corriqueiras, desde moradia, trabalho, ir a um restaurante, ao cinema, e especialmente às compras em lojas exclusivas. Um rigoroso controle de segurança regula a entrada no local: o único acesso peatonal está na entrada de serviço. Tudo isso dentro de um ambiente fechado e vigiado por câmeras e funcionários da equipe de segurança.

O conjunto, de 600.000m2 de construção, se destaca na paisagem do vale do rio Pinheiros não só pela sua escala, mas também pela maneira agressiva com que se relaciona com o entorno. A falta de conexões e acessos convidativos, em conjunto com um pesado esquema de segurança, dá ao edifício um aspecto hostil, como descreveram os jornalistas do programa Domingo Espetacular, da TV Record:

o shopping [Cidade Jardim] trouxe um novo conceito de arquitetura à cidade de São Paulo: diferentemente dos shoppings tradicionais, o espaço fechado lembra um ‘bunker’, uma caixa de concreto.”

Cientes do peso do conjunto, arquitetos e incorporadores tomaram uma série de medidas para tornar o seu “bunker” um local mais palatável. Começando pela envoltória do conjunto, a fina casca de massa corrida que cobre a estrutura de concreto busca se aproximar de um “estilo clássico” tão caro aos consumidores em busca de exclusividade. Também era preciso um cuidado especial com o interior do shopping, para tornar o ambiente agradável o suficiente e diminuir a sensação de enclausuramento. Arthur Matos Casas, arquiteto por trás de ambientes sofisticados como o Hotel Emiliano, em São Paulo, foi o escolhido para encarar esse desafio.


Herbert H. Johnson & Associates, Bal Harbour Shops, Miami, 1965.
http://www.condo-southflorida.com 


Arthur Casas, Shopping Cidade Jardim, São Paulo, 2008.
shoppingcidadejardimjhsf.com.br

Para sanar o problema, incorporadores e arquitetos chegaram à conclusão de que era preciso simular urbanidade no interior do conjunto. Baseados em um centro de compras localizado num bairro consolidado de Miami, o Bal Harbour Shops, imaginou-se um espaço a céu aberto, ao redor de uma praça verde. “É como se o consumidor estivesse na rua, mas com a comodidade e a segurança de um shopping“, explica Sharon Beting, diretora do Shopping Cidade Jardim. O arquiteto, em entrevista, destaca sua crítica visão urbanística presente na paródia de cidade criada entre quatro paredes:

Minha inspiração foi projeto de calçada pública mesmo, especialmente porque São Paulo não tem rua. O paulistano não tem o hábito de caminhar pela rua. A importância dela é tentar trazer o paulistano pra uma linguagem de rua que ele perdeu com o tempo”

A campanha publicitária inaugural do shopping enfatiza esse desejo urbano. A atriz Sarah Jessica Parker, eternizada pelo seriado Sex and the City, foi escolhida para protagonizar a campanha. Sua personagem na série, uma escritora Nova-Iorquina, passeia constantemente pelas ruas da cidade, em busca de roupas e sapatos. Ao invés de usar a estrutura do shopping, a atriz foi filmada e fotografada para a campanha nas ruas do Meatpacking District, em Nova Iorque, vestindo grifes nacionais e internacionais.

As lojas também foram escolhidas cuidadosamente para atenuar o ambiente de consumo: entre grandes joalherias e marcas de grife, foi implantada uma unidade da rede “Livraria da Vila”, surgida no bairro de Vila Madalena. A cadeia foi escolhida pela incorporadora por carregar em seu nome um bairro considerado por eles como legitimamente urbano. José Auriemo Neto, presidente da JHSF, afirma: “esse toque de Vila Madalena dará um ar cultural e amenizará o luxo ostensivo”. Houve também preocupação com o lado, digamos, intelectual, na programação da rede Cinemark: uma das suas oito salas projeta somente filmes europeus.Para completar, os frequentadores do shopping ainda podem contar com uma sucursal da Casa do Saber.


Campanha publicitária inaugural do Shopping Cidade Jardim.
gregoripavan.blogspot.com/2008/06/inaugurado-o-shopping-cidade-jardim.html 

Dessa forma, fica clara a limitação dos incorporadores e arquitetos do empreendimento na sua visão de cidade e urbanidade. A própria afirmação de que “São Paulo não tem rua” é, no mínimo, desatenta. São Paulo possui ruas de comércio que concentram consumidores de todo o país, como a Rua 25 de Março no Centro e a Rua do Oriente, no Brás. A Rua Augusta, também no Centro, através da sua diversa cena cultural, se estabeleceu como ponto de encontro da noite paulistana, articulada com a Avenida Paulista, de generosas calçadas e com intenso fluxo de pedestres durante todo o dia. Arthur Casas, em seu discurso, também parece desprezar tradicionais ruas de comércio de luxo na cidade, como a Rua Oscar Freire e a Rua João Cachoeira. De forma velada, fica marcada a intenção do novo urbanismo da JHSF de derrubar esse modelo “ultrapassado” de cidade, através do seu cínico simulacro in-door.

Mesmo buscando uma atmosfera que se remete à rua – que seu público conhece muito bem de cidades como Paris e Nova Iorque –, o “produto” que eles querem vender (ou a cidade que eles querem criar) é antes de tudo, exclusivo e isolado. No entanto, uma rua é, antes de tudo, aberta. Ela faz parte de uma rede, de um sistema, conectada com o restante da cidade, com toda sua diversidade e suas contradições. O interior do shopping não possui sequer conexões de pedestre com o exterior, nem mesmo com as torres comerciais e residenciais. Os acessos são todos verticais, feitos por elevadores e escadas rolantes, seja para os edifícios, seja para o estacionamento. A escolha do terreno, adjacente à uma via expressa, inibe qualquer tentativa de continuidade do shopping com o mundo exterior. O estacionamento se tornou a única forma de contato dos usuários com o restante do universo.


David Libeskind, Conjunto Nacional, São Paulo, 1956.
Pedro Kok, http://www.flickr.com/photos/kuk/

Muito além do estilo arquitetônico, o Conjunto Nacional, marco do início da verticalização da Avenida Paulista, se contrapõe ao Parque Cidade Jardim. Ocupando uma quadra inteira em um terreno plano entre a Alameda Santos e a Avenida Paulista, sua área comercial se desenvolve no exato nível da rua. As entradas conectam as ruas paralelas, permitindo que o pedestre possa trafegar por dentro do edifício em seu trajeto diário, mesmo que esteja apenas de passagem. O antigo calçamento em pedra portuguesa das calçadas da avenida continua para dentro do edifício, trazendo o espaço externo pra dentro. Em contrapartida, o embasamento do edifício cobre parte do passeio exterior, trazendo o espaço interno para fora. Para coroar essa continuidade, a circulação vertical entre os diferentes níveis do embasamento é feita por uma rampa circular contínua, sem interrupções.

Projetado na década de 1950, pelo arquiteto David Libeskind, o conjunto ocupa uma quadra inteira da avenida, marcando o início de sua verticalização. O programa do edifício, bem como a sua organização foi proposta pelo próprio arquiteto, que aos 26 anos, se apresentou ao empresário José Tjurs, que tinha planos para o local. Impressionado com a ousadia do jovem, o incorporador implementou o esquema proposto. O projeto previa a ocupação total da quadra por um centro comercial com cinemas, e sobre ela, apoia-se uma grande torre em forma de lâmina, contendo apartamentos e conjuntos comerciais.

A construção do Conjunto Nacional, na década de 1950, se inseria dentro de um contexto sócio-cultural nacional efervescente, onde a cidade de São Paulo se modernizava e consolidava como metrópole. Dentre outras construções realizadas na época, podemos destacar o edifício Copan e o parque do Ibirapuera, construído para a celebração do IV centenário da cidade. Para além da arquitetura, o clima otimista de modernização também se refletiva nas artes plásticas, música, poesia, cinema, produção de mobiliário e sobretudo no comportamento. A cidade parecia pronta para receber novas formas de se viver, comprar, recrear, fazendo com que a inovação fosse bem recebida pelos consumidores. Além de propor um edifício de uso misto, não muito comum na época, Libeskind buscou trazer referências do que havia de mais recente na arquitetura moderna internacional; de Oscar Niemeyer a Buckminster Füller.

Hoje, após um período de má administração do condomínio e até um incêndio, o Conjunto Nacional permanece como importante ponto de encontro na cidade. Recentemente, a Livraria Cultura interviu no espaço antes ocupado pelo antigo Cine Astor, e ocupa papel fundamental no conjunto. Ao contrário de uma livraria de “Vila”, a Livraria Cultura, possui uma atmosfera verdadeiramente metropolitana. O seu grande átrio cercado de livros, com espaços de leitura e um café, se juntam a um teatro, cinema e pequenas livrarias especializadas espalhadas ao longo do conjunto, criando um espaço de compras de fato parecido com a rua, mesmo que enclausurado.


David Libeskind, Conjunto Nacional, São Paulo, 1956.
Pedro Kok, http://www.flickr.com/photos/kuk/

Por fim, a contraposição entre esses dois modelos de edifício de uso misto em São Paulo deixam claro o embate ideológico entre a elite paulistana e a cidade ao seu redor. O Urbanismo-Safari rodoviarista, que se isola da “selva de pedra” sob justificativas falaciosas de segurança, apesar da busca cínica por referências de urbanidade, deseja se isolar da cidade que negligenciaram por tanto tempo. Fluidez, continuidade e comunicação com o seu entorno são fundamentais para a criação de edifícios de uso misto, não só mais agradáveis, mas também mais diversos e dinâmicos, como a cidade ao seu redor.

Bibliografia:

– Viegas, F. “Conjunto Nacional: a construção do Espigão Central”. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2004.

– Centofanti, M. ”A Surpresa do Morumbi”, In. “Vejinha Online”. Publicado em 10 de maio de 2006
Disponível em: http://veja.abril.com.br/vejasp/100506/cidade.html

– Pavan, G. “Inaugurado o Shopping Cidade Jardim”, In. “Blog Gregori Pavan”. Publicado em 01 de junho de 2008.
Disponível em: http://gregoripavan.blogspot.com/2008/06/inaugurado-o-shopping-cidade-jardim.html

– Portal R7 Notícias. “Arquitetura de shopping de luxo é vulnerável, diz urbanista”. Publicado em 13 de junho de 2010.
Disponível em: http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/arquitetura-de-shopping-de-luxo-e-vulneravel-diz-urbanista-20100613.html

– Site oficial do Parque Cidade Jardim
Disponível em: http://www.parquecidadejardim.com.br/

 – Site oficial do Shopping Cidade Jardim
Disponível em: http://www.shoppingcidadejardimjhsf.com.br/


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5 respostas para Muito além do estilo

  1. Felipe disse:

    Realmente, o Parque Cidade Jardim eh um icone…de ostentacao, exagero, isolamento e mau gosto, acima de tudo.

    Em tempos de EUA quase declarando moratoria (quem te viu, quem te ve), nada mais propicio para retratar o fim de uma era.

  2. Pingback: Parque Cidade Jardim na Revista Veneza - Urbanidades - Urbanismo, Planejamento Urbano e Planos Diretores

  3. Ivy disse:

    absurdo para uma elite burra

  4. Pingback: Parque Cidade Jardim SP « [QUESTÕES UA]

  5. Lais disse:

    Comparar um Conjunto Nacional à um Cidade Jardim é não ter muita visão de urbanismo. A Av. Paulista é beeem diferente da Marginal Pinheiros.

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