Duas propostas para o Anhangabaú


Lina Bo Bardi, Projeto para o Vale do Anhangabaú, São Paulo, 1981.
FERRAZ, Marcelo Carvalho (org.). Lina Bo Bardi. São Paulo, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, Imprensa Oficial do Estado, 2008.

Por Sabrina Fontenele

“Na prática, não existe o passado. o que existe ainda hoje e não morreu é o presente histórico. O que você tem que salvar: aliás, salvar não, preservar – são certas características típicas de um tempo que pertence ainda à humanidade” (BARDI, 2009, p.170).

O futuro dos centros históricos é um assunto cada vez mais discutido nos meios acadêmico e profissional. Atualmente, o aumento do número de projetos, publicações e artigos relacionados a esse respeito, assim como a aplicação de grandes investimentos em mega-projetos nessas áreas, mostram a amplitude que o tema assumiu nos últimos anos. O fenômeno também ocorre no Centro de São Paulo onde concursos de propostas e obras de intervenção em edifícios e regiões são cada vez mais frequentes – a exemplo do Restauro da Biblioteca Mario de Andrade e do Theatro Municipal, ou da abertura de galerias de arte em edifícios antigos, como a SOSO, galeria de arte contemporânea africana inaugurada no Edifício Seguradora, projeto de Oscar Niemeyer localizado na avenida São João.

Esse artigo tratará especificamente de dois projetos para a área do Vale do Anhangabaú: Anhangabaú Tobogã (1981) e Praça das Artes (2006). O primeiro apresenta-se como uma ousada provocação da equipe de Lina Bo Bardi no concurso de idéias da década de 1980, enquanto o segundo está em construção em uma quadra estratégica do Centro.

Limite da ocupação urbana original da cidade, que separava o “Centro Velho” do “Centro Novo”, o Vale foi objeto de diversas propostas de remodelação ainda no século XIX.  Em 1892, a topografia do Vale foi transposta com a construção do Viaduto do Chá que modificou fortemente a paisagem urbana e contribuiu para a ocupação da região oeste da cidade. No final da década de 1930, a construção de um outro viaduto naquele lugar trouxe um “ar modernizador” para a cidade com o projeto de Elisário Baiana (ANO).

A região do Vale do Anhangabaú foi objeto de atenção especial do prefeito Prestes Maia. Tendo sido objeto de estudo e proposta apresentada em seu Plano de Avenidas, considerava que aquele espaço deveria ser a “sala de visitas” da cidade. Entende-se assim que o visitante encontraria naquele espaço urbano o legítimo espaço de convivência  de São Paulo. Naquela área, se localizaria o tronco do sistema Y do grande eixo norte-sul da cidade que foi adotado na terceira versão do Perímetro de Irradiação. As avenidas 23 de Maio (antiga avenida Itororó) e 9 de Julho (antiga avenida Anhangabaú) – que integrariam o o circuito expresso de circulação – foram construídas como vias de fundo de vale. A ligação com a avenida Tiradentes, no sentido norte, criou uma avenida ampla e expressa de grande relevância na circulação norte-sul. Com a execução deste sistema, o Parque Anhangabaú assumiu a função de eixo viário, e não mais de um parque, como fora sugerido em diversas propostas históricas.

Em 1981, a arquiteta Lina Bo Bardi  propôs um projeto para o Concurso Público Nacional para Elaboração de Plano de Reurbanização do Vale do Anhangabaú. Tendo como dado básico de projeto o sítio, a equipe coordenada pela arquiteta (composta por Francisco Fanucci, André Vainer, Marcelo C. Ferraz, Paulo Fecarrota, Guilherme Paoliello, Bel Paoliello, Marcelo Suzuki e Ucho Carvalho) liberava a região para o usufruto dos pedestres, até então limitados pela presença das pistas expressas de deslocamento de veículo. Na primeira prancha de desenhos, apresentam-se três possíveis soluções para o problema dos fluxos de pedestres e carros no Anhangabaú: a construção de um túnel, de trincheiras de passagem ou de passarelas, nenhuma delas parece ser suficientemente boa. A proposta final separa pedestre dos carros invertendo a ordem natural: pedestres embaixo no “vale recuperado, devolvido ao povo”, enquanto os carros se deslocam acima, em um grande “aqueduto” metálico.


Lina Bo Bardi, Projeto para o Vale do Anhangabaú, São Paulo, 1981.
FERRAZ, Marcelo Carvalho (org.). Lina Bo Bardi. São Paulo, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, Imprensa Oficial do Estado, 2008.

O trajeto da via elevada acontece a partir da Praça da Bandeira até o início da avenida Prestes Maia. Duas pistas paralelas formavam um conjunto contínuo sobre nove pilares. Tendo estes pilares desenho de árvore, seus galhos enrijecedores sustentariam a pista e descarregariam nos troncos com cinco metros de diâmetros apoiados em um tabuleiro.

A idéia do “parque-vale” Anhangabaú demonstra um cuidado especial com o lugar onde se insere evidenciado na preocupação com o caráter histórico, social e geográfico da área. Ao sobrepor um plano elevado em relação ao solo natural – que viraria um grande gramado com espécies da região – e propor um laguinho onde antes existia o “buraco do Adhemar” (passagem subterrânea no encontro da via expressa do Anhangabaú com a avenida São João ), a equipe demonstrou um respeito  à geografia original do lugar, propondo uma retomada da vocação natural do Vale.

No entanto, as transformações que o entorno sofreu ao longo dos séculos não são ignoradas, mas sim reveladas como conjunto urbano. Um de seus desenhos apresenta os edifícios de relevância do contexto histórico, quase como uma narrativa de um percurso ou um convite aos pedestres que iriam ocupar aquele lugar. Sua trajetória inicia-se na Praça das Bandeiras que ganha relação direta com as construções próximas – “praça ‘aberta’ sobre o vale, circundada de verde, ‘fechada’ pelos grandes prédios como Rockefeller Center em Nova York. Na  Esplanada do Municipal, encontra-se um espaço de permanência dos transeuntes e vislumbre do skyline de arranha-céus da rua Líbero Badaró. Também no alto do Zarzur – oficialmente conhecido como Mirante do Vale, edifício mais alto da cidade de São Paulo, implantado aos pés do Viaduto de Santa Ifigênia – é proposto um restaurante popular poderia ser acessado a partir de um elevador panorâmico de vidro. O desenho da cidade visto do alto – seja a partir dos terraços ou do “aqueduto de carros” – contribuiria no reconhecimento da cidade por seus cidadãos.

A apreensão dessa paisagem parecer ser elemento essencial no projeto, um das justificativas de Lina para não se utilizar da solução do túnel. A via elevada permite a visualização do lugar também por quem se desloca de carro, enquanto o túnel – “caminho das minhocas” – bloqueia essa noção.

A primeira vista, o projeto pode aparentar uma semelhança injusta com alguns exemplares de vias expressas elevadas (a exemplo do Minhocão ou das pistas expressas americanas) que cortaram e arrasaram bairros inteiros. No entanto, o contraste entre as duas propostas é evidente. Lina busca com seu “tobogã” liberar o parque para a população sem negar, até mesmo expondo escancaradamente, a presença de uma questão urbana que seria a circulação viária de uma cidade com uma frota crescente de veículos. A via elevada proposta por Lina não se aproxima das construções, inclusive passa acima dos viadutos – do Chá e da Santa Ifigênia – existentes no lugar. Sua proposta causa uma modificação na paisagem, mas celebra a liberdade do solo.

Passados trinta anos da proposta apresentada no Concurso de Idéias, executado o projeto vencedor da equipe liderada por Jorge Wilheim, no entorno da área de intervenção, acontecem as obras da Praça das Artes. A proposta é de responsabilidade de um grupo de arquitetos da Secretaria da Cultura em parceria com o escritório Brasil Arquitetura. Este tem como sócio dois ex-integrantes da equipe de Lina no projeto do Tobogã Anhangabaú: Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci.

O projeto de um quarteirão cultural abriga um programa focado nas atividades de música e de dança. O complexo se distribui em um terreno com frente para três vias – rua Formosa (atualmente integrada ao Vale do Anhangabaú), rua Conselheiro Crispiniano e avenida São João. O partido explora essa relação com o lugar onde se insere, seja a partir das possibilidades de acesso criadas, seja a partir de seu térreos livres que incentivam o percurso por dentro da quadra. Ali, uma praça se apresenta como espaço de convívio e de encontro.

O conjunto formado pelo antigo Cine Cairo e a torre ao lado denomina-se “Corpos Artísticos” e deverá abrigar a Orquestra Sinfônica Municipal, Orquestra Experimental de Repertório, Coral Lírico, Coral Paulistano, Balé da Cidade e o Quarteto de Cordas, tendo acesso pela rua Formosa com frente para o Vale do Anhangabaú. Voltados para a avenida São João, encontram-se o edifício do antigo Conservatório – que está sendo restaurado – e dois novos blocos que deverão abrigar ao todo um Centro de Documentação, espaços administrativos e de apoios e as Escolas de Música e de Dança. Um acesso ao estacionamento subterrâneo deverá acontecer pela rua Conselheiro Crispiniano. Fachadas ornamentadas estão encostadas ou a frente dos planos de concreto aparente rasgados pelas aberturas retangulares das esquadrias.

Brasil Arquitetura, Praça das artes, São Paulo, 2006.
brasilarquitetura.com.br 

A partir da junção de alguns lotes disponíveis pela demolição de imóveis (anterior ou não ao projeto), a intenção da circulação por entre a quadra parece clara e redefine o fluxo de pedestres na região. Além da alameda da São João, será possível ir do região do Teatro Municipal até o Vale do Anhangabaú por dentro do conjunto da Praça das Artes.

A própria denominação do novo espaço como Praça das Artes já denota uma intenção de espaço público privilegiado. O entendimento de espaço público aqui se vincula diretamente a espaços mediadores de possíveis encontros e trocas de experiências, sociais e comunicativas, constituindo lugares de permanência e não somente de passagem. Espaços de usos, sobretudo coletivos, e marcados pela diversidade de atividades que ali ocorrem.

Em comum, os dois projetos apresentam essa intenção de deslocamento pelo lugar, levando os usuários da região (sejam moradores, trabalhadores, visitantes ou turistas) a percorrerem um espaço da cidade que se relaciona diretamente com essas transformações pelas quais a metrópole passa. Novos caminhos são possíveis, descobrindo o Centro de São Paulo.

No entanto, ao contrário da proposta de Lina  – que se impõe fisicamente acima do conjunto edificado, liberando-se da necessidade de uma escolha do que sai e do que permanece – aqui, a seleção dos imóveis a serem preservado é uma condição primária na lógica do projeto. Essa escolha fica evidente na relação que se estabelece entre as torres de concreto que abrigam diversas funções os edifícios históricos preservados e os vazios criados no miolo da quadra. O desenho dos novos edifícios busca  neutralidade naquele contexto histórico. Neutralidade esta que o projeto do Tobogã Anhangabaú rejeita de maneira audaciosa e impositiva.

Brasil Arquitetura, Obra da Praça das Artes vista a partir do Anhagabaú.
Foto da autora

Brasil Arquitetura, Obra da Praça das Artes vista a partir da Avenida São João.
Foto da autora

Sabrina Fontenele: arquiteta e urbanista. Doutora pela FAU-USP,
defendeu tese intitulada: “Relações entre o traçado urbano e os
edifícios modernos no centro de São Paulo. Arquitetura e Cidade
(1938/1960)”. Atualmente, leciona disciplinas de História e de Projeto
de Arquitetura e Urbanismo na FIAM-FAAM.

Bibliografia

BARDI, Lina. Uma aula de arquitetura. In: RUBINO, Silvana; GRINOVER, Maria Grinover (org.). Lina por escrito: textos escolhidos de Lina Bo Bardi. São Paulo, Cosac Naify, 2009, pp. 162-177.

FERRAZ, Marcelo Carvalho (org.). Lina Bo Bardi. São Paulo, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, Imprensa Oficial do Estado, 2008.

OLIVEIRA, Raíssa de. Marcelo Ferraz. Entrevista. São Paulo, Vitruvius, abril 2007. Disponível em http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/08.030/3295

Praça das Artes. Apresentação do projeto. Disponível em http://www.brasilarquitetura.com/

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4 respostas para Duas propostas para o Anhangabaú

  1. Luis C Rey disse:

    Não vi o nome da autora do artigo em nenhum lugar. Tem “foto da autora”, mas não o nome da autora.
    O artigo é muito bom, interessante mesmo para leigos que nada entendem de urbanismo.

    Parabéns,

    Luis C Rey

  2. claraibicuihotmail.com disse:

    Parabens o seu artigo esta estremamente maravilhoso.estou mt orgulhosa de vc,parabens vc merece

  3. Simone Pedroso disse:

    Ola,quero parabenizar a todos pelo lindo projeto, gostaria de saber se havera espaço para locação de lojas.
    Obrigado a todos
    Simone

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