Inutilidade pública (Lady Gaga em Itaquera)

Por Clevio Rabelo

No início da semana tivemos uma notícia insólita: o novo estádio do Corinthians teria, para fins de redução nos custos na obra, retirado da sua equipe de projeto a empresa carioca de arquitetura CDC Arquitetos e seu sócio-representante Aníbal Coutinho. A nota em si foi desmentida ao longo da semana, mas gostaríamos de tomar o caso como mais um desses momentos peculiares em torno dos quais podemos pensar sobre a profissão da arquitetura no Brasil. Não considero o caso irreal, mas totalmente esperado dentro da situação nacional. Além disso, ele retoma um axioma histórico acerca da nossa imagem profissional, esta sendo novamente pensada junto à categoria do engenheiro.

Pergunte a qualquer pessoa na rua o que ela acha do acontecimento. Você se surpreenderia se alguém não achasse necessária a presença do arquiteto no projeto, ou se dissessem que: o arquiteto faria a fachada não é?

Acho que a imagem mais forte que a opinião pública tem da profissão ainda diz respeito a algumas habilitações artísticas que ficaram mais evidentes a partir do início dos anos 1900, como no caso das edificações que compunham a Avenida Central (inauguração em 1906), quando os arquitetos criaram, por concurso, exuberantes fachadas para o que seria o grande cenário da nova urbanidade da Capital Federal. Ainda no Rio, no início dos anos 1920, os arquitetos foram mobilizados pelo Prefeito Carlos Sampaio para a tarefa de projetar e construir os mais diversos pavilhões da Exposição do Centenário da Independência, mas foram, ao mesmo tempo, refutados por vereadores locais quando tentavam se inserir de maneira mais clara na produção de casas econômicas do mesmo período, sob a alegação de que a entrada dos arquitetos na questão só acrescentava um honorário em um orçamento que deveria diminuir cada vez mais.

Apesar dos anos 1930 representar uma ascensão da profissão, com o aumento significativo da entrada de estudantes no Curso de Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes, por exemplo, ao montar o concurso público que reformou os quadros profissionais da Diretoria de Engenharia em 1932, a Municipalidade esquecera quase que inteiramente dos arquitetos. Pois mesmo contando com uma Seção de Arquitetura e outra de Urbanismo, das 106 vagas imaginadas na nova repartição, apenas 3 foram destinadas aos arquitetos. Sorte que tínhamos a apaixonada engenheira Carmen Portinho do nosso lado e esses três arquitetos conseguiram fazer enorme barulho, visível principalmente nas atividades da Revista PDF e na atuação de um deles, o arquiteto Affonso Eduardo Reidy.

No Estado-Novo a classe obteve vitórias mais significativas: arquitetos foram maioria nos quadros do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) e nas ações estatais com vistas à produção de moradia econômica. Nesse período e no que se estende até a criação de Brasília, é inegável a articulação entre as vanguardas arquitetônicas brasileiras e o Estado, sendo os arquitetos intelectuais que gozavam de boa situação junto à decisões político-culturais de importância nacional. Os arquitetos brasileiros mais conhecidos, fora e dentro do país, são Oscar Niemeyer e Lucio Costa, com destaque total para o primeiro, cujas mãos desenharam as formas exuberantes e inovadoras dos principais edifícios da Nova Capital.

Terá o arquiteto do Itaquerão ter sido demitido porque propôs formas simples para o estádio que representará São Paulo na Copa de 2014? Não gostaria de analisar a qualidade do projeto, que não se conhece em detalhes, mas fica difícil imaginar a China dar um tchau para a dupla Herzog & De Meuron quando estes propuseram a complexa forma do “ovo” olímpico.

São muitas conjeturas. O motivo poderia até ser político, ligado a algum sistema menos ortodoxo de contratações ou redes de influências em que os arquitetos se encaixassem mal, mas o que não deve chocar a ninguém é que a sociedade e a cidade brasileira têm prescindido dos arquitetos. E precisado muito dos engenheiros.

Esse balanço fica muito claro no momento de crescimento econômico acelerado e no boom imobiliário pelo qual passa o país, mas no qual vemos perspectivas muito desiguais para ambas as profissões. Se os engenheiros encarnam a necessidade de provimento de segurança, infra-estrutura e tecnologia que segura o Brasil no subdesenvolvimento (esse o discurso empresarial) e com isso faltam profissionais, que são disputados ainda na universidade a peso de ouro, com salários inimagináveis há dez anos, a situação da arquitetura ainda é muito frágil, na medida em que existe um contexto histórico da profissão que a liga ao outro lado da moeda: somos responsáveis pela superfície, pelo ornamento, por pensar analogias, pela fantasia e pelos sonhos das pessoas (o que até poderia ser bom se o inconsciente fosse categoria aceita na construção da realidade da maioria).

Acredito que o país perde muito ao desconsiderar os arquitetos. Além de observações mais óbvias sobre a qualidade ambiental e visual das cidades nas quais um desenho não-absoluto as torna mais interessantes, me agarro a panfletos lá dos anos 1930: os arquitetos historicamente foram mais capazes de elaborar perspectivas culturais para suas realizações materiais. Eu particularmente imagino que as grandes cidades e países do amanhã não deveriam seguir modelos como o da China, de uma produção cultural controlada e muitíssimo aquém da sua capacidade de produção material.

Uma perspectiva também a se pensar diz respeito a questões de gênero. Nas últimas décadas, que coincidem com esse fosso maior que temos tentado descrever, a profissão tem sido considerada campo de atuação prioritário de mulheres e homossexuais. São por demais conhecidas as piadas de gosto duvidoso que envolvem a virilidade de engenheiros e arquitetos, ao mesmo tempo em que me pergunto que profissão dessas consideradas femininas (como professores e domésticas) tem sido reconhecidas financeiramente pela sociedade.

Assim, a partir desse exército de loiras e desmunhecados, invento nossa imagem como uma espécie torta de Lady Gaga da construção: somos divertidos, chocantes, subversivos, ditamos moda e inovações, criamos formas incríveis e viramos grifes. A parte trágica é que os arquitetos não tem tido o sucesso financeiro da cantora. Aliás, acredito que poucas obras de arquitetura tem tido verba equiparável a um orçamento de um dos seus clipes. Nesse sentido, a profissão no Brasil não consegue ser nem mesmo um bom clipe. Ela é no máximo um PowerPoint mal-feito, quando não apenas uma ilustração que vende uma falsa felicidade ditada por grandes empresas nas estampas das páginas de jornal. Esse o mesmo veículo que tanta relevância dava às discussões acerca da arquitetura e da cidade lá nos anos de 1920 e 1930.

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