O Parque Dom Pedro II e as fundações da arquitetura pública

Várzea do Carmo, em 1860, por foto de Militão Augusto de Azevedo. 
Lago, P.C. “Militão Augusto de Azevedo”, Rio de Janeiro: Capivara, 2001. pp. 36.

Parque Dom Pedro II. Foto do autor, 2006.

Por Pedro Murilo Freitas

“….um projeto de fôlego, um projeto de planejamento, um projeto apresentado por etapas, e que terá essa possibilidade, que é a possibilidade de recuperação dessa área tão degradada aqui na cidade de São Paulo.” (1)
Prefeito Gilberto Kassab

No início deste mês, a Prefeitura divulgou – em resposta ao final eminente da demolição dos edifícios São Vito e Mercúrio – as imagens do Projeto de Revitalização do Parque Dom Pedro II. Acompanhadas de um resumo das obras a serem realizadas (2), contempla-se uma ampla transformação urbana a custo estimado de mais de 1,5 bilhão de reais. O projeto, de autoria da Fundação para a Pesquisa Ambiental, ligada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, não aparenta ser muito diferente do habitual: mesmo que inclua a demolição do viaduto Diário Popular, novas instalações de serviços sociais e um centro de compras, prioriza obras de drenagem, terminais de transportes urbanos e alterações significativas no sistema viário – incluindo um grande túnel sob o parque.

Projeto de Revitalização do Parque Dom Pedro, imagem das instalações do SESC e do SENAC diante do Mercado Municipal, antiga quadra dos edifícios São Vito e Mercúrio, 2011. 
Divulgação.

Embora numa área que se integra a uma complexa discussão sobre os usos e desusos das áreas centrais metropolitanas, confronta-se, pela forma como foi apresentado pela Prefeitura de São Paulo, a ausência da enorme discussão pública sobre o tema nos últimos anos. Mesmo que a autoria por uma fundação de uma universidade pública possa associar algum emblema de fundamento em pesquisa acadêmica ou sugerir alguma instância democrática, basta vasculhar algumas informações (entre teses e artigos) para verificar muitas propostas que não se vinculam ao projeto que temos notícia. Além disso, esta área, freqüentemente descrita pelo poder público e a mídia como um dos cenários do caos urbano paulista, tem sido atribuído como um nó insolúvel, o que resulta, ao menos à primeira vista, mais um dos incompletos capítulos de intenções projetuais.

O fato é que as razões deste ceticismo talvez se expliquem na ausência da própria noção de tempo nas imagens que se apresentam e nas palavras que a descrevem. Assim como todas as propostas convalidadas pelo discurso da “degradação”, a comunicação do projeto ignora a permanência histórica que se vislumbra no vale, relacionado diretamente ao centro antigo e de fundamental importância para a memória de São Paulo. Situado na antiga várzea do Carmo, de cheias que até o final do século XIX implantaram e deram nome às principais vias e edifícios do entorno, este espaço é uma verdadeira antítese à acrópole de fundação e que, das funções urbanas de uma natural “cidade baixa”, sempre teve sua razão de existência contemplada historicamente.

Exemplo disso é o primeiro desenho do parque, de Joseph-Antoine Bouvard no qual, ali, entre meandros, alamedas arborizadas e uma ilha artificial, constituiu-se o mais amplo espaço público da cidade. Diante da proximidade com a região do Brás e o tradicional caminho para o Rio de Janeiro a partir da ladeira e do pontilhão do Carmo, o desenho de Bouvard reafirmou a imagem da colina histórica por muitos anos, um equilíbrio urbano que logo seria perdido. Assim descreve suas intenções, no relatório de 1911 (3):

(…) não me deixei guiar pelas impressões do primeiro momento, pela suggestão de um exame fugidio dos locaes; estudei o terreno, examinei o movimento commercial e a intensidade de circulação dos differentes bairros; tomei nota dos aspectos mais interessantes dos monumentos, etc., e foi partindo do estado de coisas presente que cheguei á deducção do processo de crescimento normal da cidade, de futuro. Teria certamente sido fácil delinear uma cidade idéal, concebida de ponta a ponta, não fazendo caso do que existe, abstraindo dos esforços do passado; mas teria sido desconhecer os resultados alcançados, calcar aos pés as coisas mais respeitaveis, dar mostras da mais negra ingratidão para com os antepassados, teria sido aniquilar parcialmente a historia de uma grande cidade. Não era seguramente esse o objectivo a ter-se em vista.

E, de facto, quanto mais estudei a topographia da capital, tanto mais examinei o que ella foi no seu principio e no que se transformou, mais profunda foi a convicção firmada no meu espírito, de que, sem comprometer coisa alguma, era possivel tirar partido, e excellente partido, do que já existe, com o fim de garantir o futuro.

Planta da Cidade de São Paulo (SARA Brasil, 1930). 
 Prefeitura de São Paulo, DPH.

Imagem aérea do Parque Dom Pedro e da colina histórica do Colégio, c. 1930, autor desconhecido.


Ilha artificial do Parque Dom Pedro II, s./d..

Para além da noção do nó urbano, a história revela que o Parque Dom Pedro II permanece um lugar ainda exemplar: o caráter essencial do sítio histórico transpõe, na sua atual síntese, a imagem das conseqüências negativas que o espaço urbano pode sofrer após uma longa administração pública pensada unilateralmente pela lógica arrasadora dos meios de produção. É no estado calamitoso que se pode ler a expressão viva dos planos rodoviaristas que foram valorizados em São Paulo e no país, constituindo-se em mais um dos tantos ícones do modelo de governo que privilegia a lógica dos fluxos em detrimento da qualidade dos espaços.

***

A partir dessa leitura, nos interessa recuperar um projeto que consideramos uma inflexão necessária desse último paradigma e que pode nos trazer paralelos importantes: a reflexão de Lina Bo Bardi quando da Restauração do Palácio das Indústrias, sua última obra, publicada em sua principal monografia (4). Promovida pela então Prefeita Luiza Erundina entre os anos 1990 e 1992 para instalação da sede da administração municipal, tratou-se da primeira resposta, arquitetônica e institucional, a anos de tratamento do conjunto do Parque Dom Pedro II como aglomerado viário.

Lina destaca (5), detendo-se na arquitetura do edifício de Domiziano Rossi, colaborador de Ramos de Azevedo, a importância do Palácio, valorizando seus elementos ecléticos e sua postura icônica, criados em direta representação à cidade de São Paulo. Ressalta ainda, a partir e além dele, a necessidade de integração definitiva com o parque, desenhado contemporaneamente. Demolindo-se o viaduto Diário Popular seria possível projetar, em seu lugar e ressoando sua forma, um pavilhão anexo que concentraria as demais funções do programa proposto, dando espelho a um gigante jardim vertical que fizesse fundo ao edifício principal, magnificamente iluminado em tons de vermelho e amarelo – o “fogo do nascimento da indústria” (6) – para propiciar sua plena visualização, tanto do parque como a partir da histórica colina do Colégio.

Estudos para o projeto de Restauração do Palácio das Indústrias, 1990. 
“Lina Bo Bardi”, São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi; Imprensa Oficial, 2008. 

O que se prima no texto de Lina é a síntese, histórica e espacial, pontuada pela necessidade de mudança do pensamento habitual que conceitua uma degradação a priori, antes mesmo de ela ser identificada. Ao mesmo tempo, discurso e proposta estão de tal forma amarrados, que é difícil não ser conquistado pela sua autenticidade e sustentação téorica. Lina queria dispor às pessoas aquilo que as pessoas precisam. E poucos são os instrumentos necessários para tanto: basta que o arquiteto, em sua sensibilidade, seja capaz de entender aquilo que chama de “presente histórico” (7), o conhecimento humano que persiste estratificado na matéria histórica dos edifícios, não importando o estado que chegou até nós pelas gerações anteriores. Em uma atitude que contempla a crítica tipológica de Aldo Rossi (8), nada mais são do que essa essência do lugar – tanto formal, como social e histórica – que, se bem interpretada e atenciosamente trabalhada em qualquer projeto, traduz-se em verdadeira arquitetura e em uma cidade que pode ser continuada, novamente destinada ao futuro ou “revitalizada” – se quisermos usar a expressão que se está tencionando.

Se estes princípios estão contemplados no projeto apresentado pela Prefeitura em 2011, perderam-se entre a produção arquitetônica e sua comunicação.

As imagens divulgadas suscitam uma verdadeira assepsia, em parte já promovida pelo abatimento de um dos maiores ícones deste pré-conceito por anos – a quadra dos edifícios São Vito e Mercúrio. A divulgação propícia do projeto quase no final dos trabalhos de demolição, evidencia que não havia até então um plano preciso a ser discutido pela atual administração, nem uma divulgação técnica mais abrangente que pudesse, no mínimo, dirimir as dúvidas que pairavam sobre o futuro do lugar. Os dois novos edifícios de organismos sociais independentes – para além da forma enviesada e monolítica – soam como uma resposta pronta à falta de políticas públicas sociais eficientes. Junto dos escombros, aproveitado ironicamente como um propalado asfalto ecológico, vão por terra todo o investimento público e recursos que buscaram alternativas à manutenção e restauração destes edifícios em nome da necessidade de moradia digna no centro a milhares de pessoas.

No outro lado do parque, se há possíveis ganhos na demolição dos viadutos, na melhoria da visualização da paisagem e na recuperação da ligação do centro à Zona Leste, a imagem das lagoas de retenção (novo nome para o que parecem ser os antigos “piscinões”) substitui a visualização do estranho e enorme edifício multimodal, visível somente na planta. Enquanto a várzea histórica é geometricamente refeita, fazendo frente a uma paisagem em computação gráfica de um desnecessário shopping/centro de compras (como se esse ambiente já não o fosse naturalmente), o novo terminal urbano se agarra em L à estação de metrô existente e isola o 2º Batalhão de Guardas de sua histórica participação na paisagem. Visto somente em seu núcleo, e não como um conjunto estratificado de mais de 150 anos de história, torna-se o exemplo de como o detalhamento de demais parâmetros de uso, que apresentem o sentido das formas arquitetônicas propostas em relação ao papel que desempenhariam os edifícios históricos do entorno – como a Escola Estadual São Paulo e o próprio Palácio das Indústrias –, destitui o projeto de sua prometida revitalização e integração coerente com o existente.

Desse modo, transparece que as imagens atuam somente no sentido de “renovar” as aparências. Além disso, ao apoiar-se na máquina das fundações e suas “dispensas de licitação” (9), a Prefeitura opta por evitar a discussão pública do processo projetual, muito mais adequada se houvesse ao menos um concurso, e estancar a área de sua importância urbana. O resultado é mais uma forma de se apropriar deste espaço e propor algo que tende, pela ausência de participação coletiva, mais um estrato e não a síntese “de fôlego” prometida. Conclui-se que em nada se modificam as acepções costumeiras (e incompletas) da qual o parque tem sofrido desde Bouvard.

De degradação em degradação, entre preconceitos e álibis para caríssimas obras de grande porte, a atual arquitetura pública (na qual incluem suas fundações) parece não desejar reencontrar o sentido essencial deste lugar paulistano, este sim, tão caro “e mais amado” (10) por Lina.


Projeto de Revitalização do Parque Dom Pedro, 2011. 
Divulgação.

Notas

(1) KASSAB, G. Declaração à jornalistas em 04 de maio de 2011. Disponível em: <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/05/revitalizacao-do-parque-dom-pedro-esta-prevista-para-comecar-em-2012.html&gt;. Acesso em 15 mai. 2011.
(2) SÃO PAULO (cidade). Notícias. Prefeito anuncia revitalização do Parque Dom Pedro II. Disponível em: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/portal/a_cidade/noticias/index.php?p=44204&gt;. Acesso em 15 mai. 2011.
(3) BOUVARD, J. apud TOLEDO, B. L. São Paulo: três cidades em um século. São Paulo: CosacNaify; Livraria Duas Cidades; PMSP, 2004. 4 ed. pp. 126-127. Para detalhes sobre o Plano Bouvard, que também incluiu o Parque do Anhangabaú, ver SEGAWA, H. Prelúdio da metrópole: arquitetura e urbanismo em São Paulo na passagem do século XIX ao XX. Cotia: Ateliê, 2000. pp. 92-102.
(4) BARDI, L. B. (Org.). Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi; Imprensa Oficial, 2008. 3. ed.
(5) Ibidem. pp. 318-325.
(6) Ibidem. pp. 318.
(7) “Na prática não existe o passado. O que existe ainda hoje e não morreu é o presente histórico. O que você tem que salvar – aliás, salvar não, preservar – são certas características típicas de um tempo que pertence ainda à humanidade.”. In: Ibidem. pp. 319.
(8) ROSSI, A. A arquitetura da cidade. São Paulo: Martin Fontes, 1995.
(9) LIMA, M. Sem concurso público, projeto de revitalização do Parque Dom Pedro II é finalizado em São Paulo. Piniweb. Arquitetura. Disponível em: <http://www.piniweb.com.br/construcao/arquitetura/sem-concurso-publico-projeto-de-revitalizacao-do-parque-dom-pedro-215012-1.asp
(10) BARDI, L. B. (Org.). Op. Cit. pp. 318.

Pedro Murilo Freitas é arquiteto pela FAUUSP e especialista em Teoria e Prática da Preservação e do Restauro pela Unisantos. Atualmente cursa mestrado no programa de pós-graduação da FEC/Unicamp.

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Uma resposta para O Parque Dom Pedro II e as fundações da arquitetura pública

  1. daniel disse:

    qual ônibus vai para pq. dom pedro segundo ?

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