Resenha: Duas Exposições no MAM-SP – Sustentabilidade e Arquitetura

Hale County Animal Shelter – Greensboro, AL – 2006 – Rural Studio
www.cadc.auburn.edu/rural-studio/

Por Luiz Florence e Rafael Urano Frajndlich

O Museu de Arte Moderna recebe atualmente duas exposições com o tema da sustentabilidade relacionado à arquitetura. Uma delas representa um manifesto internacional. A outra, de curadoria brasileira, feita especialmente para o MAM, apresenta-se como resposta à primeira.

A exposição estrangeira, sediada na grande sala, foi organizada pela Cité de L’Architecture et du Patrimoine, originalmente apresentada em Paris, entre maio e novembro de 2009, organizada pela arquiteta e jornalista Dominique Gauzin-Müller.

Na busca de defender a idéia da arquitetura sustentável como “primeiro movimento global de arquitetura”, Gauzin-Müller divulga o trabalho de arquitetos que contribuíram para “tornar as cidades mais sustentáveis”. O recorte da exposição apresenta o trabalho de arquitetos oriundos de diversos países sem ligação explícita para fundamentar a idéia de movimento global. Dividida em três seções, a exposição começa pela apresentação dos precedentes sustentáveis da arquitetura moderna.

O argumento da curadoria levanta a responsabilidade ecológica, a retomada de técnicas vernaculares locais, e a inclusão social como denominador comum. São apresentados projetos notáveis de um passado recente da arquitetura contemporânea, da grande qualidade, para além da preocupação ambiental. Destacam-se práticas como as do Elemental, encabeçado pelo arquiteto chileno Alejandro Aravena, e o Rural Studio, fundado por Samuel Mockbee, ambos resultados de investigações de longo prazo.

Retrato de Alejandro Aravena – Elemental – 6’55”

Ao final da exposição há uma sessão dedicada aos jovens escritórios franceses. As edificações, situadas normalmente em território de fronteiras urbanas, fortemente relacionadas com o ambiente rural, tornam difícil a leitura de um exemplo de urbanização consciente. Ao contrário dos exemplos anteriores, os projetos franceses tornam evidente a argumentação da curadora em torno de uma retórica sustentável, mais do que apresentar soluções reais. São edifícios geralmente de uso institucional – não há dentre os projetos a idéia de adensamento urbano – e chama a atenção a utilização de materiais naturais como bambú, madeira natural, solo-cimento e fibras naturais. É evidente a apropriação figurativa do conceito de sustentabilidade pela mimese com a natureza.

Juntar arquitetos de todo o século XX, de tantas partes do mundo, para criar uma idéia de objetivo comum resulta em uma mostra que compacta em demasia práticas no limite divergentes. É certo que Frank Lloyd Wright e Alvar Aalto tinham uma grande preocupação com a natureza em seus projetos. Mas daí a cotejá-los, junto com uma série de escritórios mais jovens, a bandeira da sustentabilidade, pareceu-nos um pouco artificial.

Neste sentido, a exposição brasileira Razão e Ambiente, propõe uma mirada mais detalhada – também com ares de manifesto – na questão brasileira. Enquanto Gauzin-Müller coloca a matriz brasileira da sustentabilidade em Zanine Caldas, o curador Lauro Cavalcanti preferiu citar três arquitetos mais alinhados a Europa: Lina Bo Bardi, Lucio Costa, e Sergio Bernardes. Completando o cenário compreensivo sobre o tema, 25 outros projeto de arquitetos contemporâneos e três exemplos de investigações de estudantes são expostos. A intenção é menos expor o bom rendimento dos projetos, tanto que a palavra ‘sustentável’ é substituída pela ‘ecológica’, mas de mostrar como a arquitetura brasileira do século XX tem na natureza um tema recorrente. Cavalcanti cita como exemplo os jardins de Lina Bo Bardi e o arrojado projeto de Sérgio Bernardes sobre uma cidade suspensa sobre cabos em Parati.

Os escritórios contemporâneos brasileiros são quase todos os mesmos que também apresentam suas obras na mostra “A invenção do espaço de convivência”, resenhada na semana passada. Enquanto a mostra do Prof. Julio Katinsky buscava mostrar obras construídas e consolidadas, Cavalcanti prefere projetos em andamento que carreguem um discurso radical acerca da relação com a natureza. Com muita perspicácia, o curador coloca ainda projetos de graduação feitos nos últimos três anos, que contenham esta temática – lamentando-se apenas a sua estranha opção de colocar exclusivamente trabalhos de uma faculdade particular, a “Escola da Cidade”, preterindo a formação de um quadro variado que contivesse outras faculdades do Brasil.

Os projetos são apresentados dentro de uma réplica da mostra de Lúcio Costa em Milão (“Riposatevi”) de 1964, onde redes com violões são espalhadas em um salão, convidando os visitantes a deitar-se e relaxar. Tal paralelo é direto com a mostra de Gauzin-Müller, onde cadeiras de praia são distribuídas pelo grande salão do MAM, em um intuito análogo de ligar bem-estar à sustentabilidade.

O ladeamento das duas mostras é o grande diferencial que justifica o passeio: é possível ver uma mostra internacional que procura dar um valor comum à várias práticas, enquanto a brasileira procura dar algumas especificidades à questão nacional. Enquanto Gauzin-Müller escreve textos que deixam clara a sua vontade de síntese, Cavalcanti é mais enxuto, deixando que as diferenças entre as gerações fiquem a mostra tanto quanto as suas semelhanças; é mister o lapso de pensamento que separa um urbanismo tão despreconceituado como de Sérgio Bernardes daquele tão incisivo e programático quanto os que estão apresentados nos Trabalhos Finais de Graduação. Entretanto, parece-nos que o que fica em segundo plano nas duas mostras é a própria idéia de sustentável, que não é a preocupação central da maioria dos escritórios mostrados, e cujos conceitos são apresentados de forma vaga. As mostras são interessantes pela pesquisa sofisticada de Gauzin-Müller e pelos desenhos selecionados por Cavalcanti, a ponto de atrair estudantes e arquitetos que queiram se atualizar com um bom apanhado da produção internacional, e conhecer melhor aspectos da nossa tradição, sempre chamada à tona como pretexto para justificar os meandros presentes da prática no Brasil, da qual esta exposição nacional não é exceção. As redes de Lucio Costa, os desenhos de Lina e Bernardes parecem fazer mais parte da mostra de Gauzin-Müller que a de Cavalcanti, dando um respiro agradável a muito variada e intrigante seleção da jornalista francesa.

Mobiliário da exposição francesa

“Morada ecológica
Museu de Arte Moderna, Grande Sala
Parque do Ibirapuera, Portão 3
São Paulo, 
(0xx)11 5085-1300
http://www.mam.org 

“Razão e ambiente
Museu de Arte Moderna, Sala Paulo Figueiredo
Parque do Ibirapuera, Portão 3
São Paulo,
(0xx)11 5085-1300
http://www.mam.org 

R$ 5,50 a inteira para as duas exposições. Gratuito aos domingos.
Terça, domingos e feriados, das 10 às 18 horas. 
A bilheteria fecha às 17:30.

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Revista de arquitetura contemporânea
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Uma resposta para Resenha: Duas Exposições no MAM-SP – Sustentabilidade e Arquitetura

  1. Polly Sjobon disse:

    Eu a reboque destas exposições todas – mais uma para a lista – irei.

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