Resenha: “O coração da cidade: A Invenção do espaço de convivência”

Roberto Burle Marx e Affonso Eduardo Reidy, Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, 1965.
Nelson Kon. nelsonkon.com.br

Por Rafael Urano Frajndlich

O Instituto Tomie Ohtake continua sua iniciativa de promover exposições de arquitetura.  A mostra “O coração da cidade: A invenção do espaço de convivência” reafirma o seu interesse nesta atividade, uma série que já mostrou a obra recente de Alvaro Siza, do escritório japonês Sanaa (e sua gigante maquete do conjunto de Lausanne – ver Por Trás da Transparência publicado na Veneza) e um grande itinerário sobre arquitetura brasileira em 2010 (“Arquitetura brasileira: viver na floresta”, de curadoria de Abílio Guerra).

            O curador Julio Roberto Katinsky, decano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, preferiu construir uma síntese que desse coesão a diversas tendências que marcaram a produção no século XX e princípio do XXI no Brasil. Seu argumento se baseia em uma existência de fios condutores tipológicos que podem ser vistos neste longo arco de produção. O curador tomou como ponto de partida o edifício do Ministério de Educação e Saúde, inaugurado na década de 30, que tornou a arquitetura brasileira “autônoma como proposição estética”. A exposição procura mapear categorias de desdobramento desta obra histórica, alçada ao valor de paradigma porque “devolveu a quadra para a cidade”.  Assim, prédios que já possuem o selo de patrimônio histórico como a marquise do Parque do Ibirapuera e a Praça dos Três Poderes dividem espaço com obras de escritórios mais novos como Mmbb e Isay Weinfeld.

A mostra apresenta as obras através de cinco diferentes aproximações: o primeiro, Praça Verde, com grandes parques e suas estruturas de suporte, o segundo chamado Prédio sobre a Praça, apresenta edifícios com o pavimento de acesso públicos, seja com lojas ou jardins. O terceiro segmento é abertamente tipológico, chamando-se Grandes vazios, contendo edifícios cuja solução de planta se baseia em um espaço pavilionar. Neste capítulo está o próprio edifício do Instituto Tomie Ohtake e o da faculdade de arquitetura e urbanismo de São Paulo.

Estes três conceitos são complementados com outros dois, presentes em outra sala do museu: os grandes complexos de equipamentos habitacionais e comerciais como o conjunto do Pedregulho de Reidy ou a intervenção habitacional em Heliópolis de Ruy Ohtake aparecem chamadas de Mini-Cidade-Residências. Um pequeno capítulo desdobra nosso legado de construções institucionais, intitulado Praça Cívica. Fechando a exposição, temos um amplo quadro de edifícios resolvidos com Grandes Coberturas, no qual a exposição atesta a recorrência de diversas gerações de arquitetos apresentando uma estrutura única que dê conta de todo o espaço.

Tais aproximações são feitas em uma série de fotografias autorais apresentadas de diversas maneiras: a FAUUSP ganhou uma nova maquete feita em acrílico, alguns ângulos do Ministério da Educação e Saúde e o Centro Cultural São Paulo são apresentados em três dimensões (com aqueles óculos em duas cores que tanto voltaram à moda depois de longa-metragens como Avatar). A opção da curadoria em não mostrar desenhos técnicos atesta a intenção de proporcionar aos visitantes uma experiência menos técnica e mais inteligível. As fotos dos edifícios são hierarquizadas em grandes painéis dos projetos fulcrais de cada categoria, com pequenas fotos de vários edifícios análogos e desdobramentos colados no chão, fazendo do espaço da mostra um campo onde todas as arestas têm alguma coisa para se ver, algum comentário visual.

Tal amparo nas imagens cria este pequeno problema: as fotografias de Nelson Kon, Leonardo Finotti e outros já foram exaustivamente apresentadas em publicações e sites especializados. Assim, o material teve de ganhar expressividade nos tamanhos e justaposições. As maquetes, carro-chefe da mostra, de fato têm uma boa contribuição, especialmente na apresentação da FAU de modo transparente, traindo a visão inicial do prédio, como uma caixa fechada, sendo pouco didático, mas muito provocador das relações que acontecem nesta escola, recentemente alvo de tantas polêmicas por causa de suas reformas.

Os arquitetos mais ávidos por novidades não vão, portanto, achar algo de novo nesta mostra, que é sem dúvida pertinente a jovens estudantes e secundaristas que ainda não decidiram sua carreira, e certamente excelente ao grande público, de costume avesso às deambulações muito teóricas sobre arquitetura e cidade. O discurso construído pelo Professor Katinsky é muito didático. Suas categorias são legíveis de imediato nas obras selecionadas, e seus textos, embora um pouco rebuscados na busca de uma matriz sociológica (amplamente baseado em Gilberto Freyre) para explicar as origens da arquitetura moderna brasileira.

A guisa de conclusão é interessante ponderar acerca da vontade de síntese que esta exposição demonstra. Tal esforço de tornar coerente setenta anos de prática profissional dentro do país, ultrapassando contextos políticos, escalas, materiais e mesmo querelas estilísticas aparece como mais uma intenção de reunir os arquitetos em torno de uma agenda comum de desenho das cidades. A mostra ganha eloquência neste sentido na medida em que apresenta muitos prédios consolidados, todos registrados com o seu entorno (à exceção das residências privadas em condomínios). Entretanto, diante de um quadro acadêmico que cada vez mais se esforça na direção de aprofundar nas particularidades de cada corrente, cada arquiteto e período histórico, resta difícil fazer um tipo de argumentação que sustente uma continuidade de todos estes períodos. O Professor Katinsky constrói uma coesão pelas soluções espaciais: a preocupação estrutural, as escolhas de materiais e mesmo questões como empenho político dos arquitetos apresentados depõem contra tal vontade de síntese. Assim, esta exposição do Instituto Tomie Ohtake tem um certo ar nostálgico, testemunho de uma visão da arquitetura moderna brasileira como portadora de um projeto comum, transparecido em empenas, átrios, lâminas e praças, interessante de se ver deixando-se levar pelo encanto destes edifícios, mas sempre mantendo muita cautela.

“O coração da cidade: A invenção do espaço de convivência
Instituto Tomie Ohtake,
Rua dos Coropés, 88
São Paulo, 05426-010
(0xx)11 3814-0705
Gratuito. De terça a domingo, das 11 às 20 horas.

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Uma resposta para Resenha: “O coração da cidade: A Invenção do espaço de convivência”

  1. Polly Sjobon disse:

    Parece ótimo, quero ir.

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