Boring is Beautiful

Velódromo Olímpico – Londres, 2011 – http://www.designboom.com/weblog/cat/9/view/13356/hopkins-architects-london-2012-olympic-velodrome-complete.html

Por Luiz Florence

Para os próximos jogos olímpicos, a serem sediados na cidade de Londres, a expectativa a redor da imagem urbana preparada para a ocasião chega a ofuscar a projeção do evento esportivo. Tudo isso se devendo mais ao conjunto construído histórico da cidade, do que os projetos para as novas instalações. Ao contrário da estratégia grandiloquente de Pequim, Londres não utilizou nenhuma instalação chamariz dos desenvolvimentos atingidos pela intervenção urbanística. Malgrado existam exemplos como a arena de pólo aquático, projetada por Zaha Hadid, esta edição dos jogos não será marcada pelos feitos dos arquitetos internacionais, grifes que imprimem sua assinatura para atrair investidores e aumentar o retorno dos custos da infraestrutura. Afinal, a maior preocupação não é como justificar a importância da cidade para o capital, mas sim defender a sustentabilidade da intervenção para o futuro posterior aos jogos.

O endereço eletrônico do evento está repleto de informações sobre a preocupação acerca do impacto de cada intervenção. Algumas obras, como a arena de basquetebol e o Greenwich Park, para jogos equestres paraolímpicos, serão desmontadas, e muitas instalações serão aproveitadas dentro do conjunto construído existente. Um luxo que poucas cidades podem se dar. Onde quase nada precisa ser construído, resta saber o que é interessante e oportuno, comercialmente, turisticamente e urbanisticamente. E em um ambiente de extrema exposição e constante fiscalização, no qual nada pode sair fora do planejado, a sustentabilidade do evento é peça chave. A palavra de ordem é ordem, e não brilho ou magia. O discurso do “boring” – o chato, monótono – desta vez, não se opõe ao “beautiful” – o belo[i]. Dentro deste panorama, os escritórios locais tiveram participação intensiva não só no planejamento da intervenção relativa diretamente aos jogos, mas no contexto geral de transformação urbanística da cidade.

Não espere, no entanto, encontrar nomes conhecidos na escala de Rogers, Chipperfield, Foster, ou outros grandes escritórios internacionais. Os atuantes neste panorama são primordialmente locais, e representam a arquitetura londrina que se desenvolve a partir da tradição de arquitetos como Colin St. John Wilson – ver o escritório Caruso St. John, na lista de sites de escritórios indicados por uma colega arquiteta local. A vertente inglesa de arquitetura moderna do pós-guerra passou as últimas décadas refinando a prática revisionista da arquitetura moderna, partindo do brutalismo dos Smithsons, da ética construtiva do London City Concil (LCC), e a proposta pitoresca típica inglesa, defendida nos tempos áureos da Architectural Review, então editada por Nikolaus Pevsner e JM Richards. Não podemos, no entanto fazer comparações com escritórios brasileiros. Estes escritórios não são pequenos, nem tampouco desconhecidos na cena local. São grandes grupos, que ocupam instalações de 3 andares de ateliês, e desenvolvem projetos de grande escala. Mas ainda assim existe uma grande diferença entre estes e os grandes tubarões da arquitetura internacional. Estes escritórios projetam pequenas galerias de arte, cafés, pequenos conjuntos residenciais, reformas.

Chiswick House Cafe – Caruso & Saint John Architects – Londres, 2010
http://www.carusostjohn.com/projects/chiswick-house-cafe/

Um dos poucos marcos permanentes a serem construídos, a Arena de Handebol, projetada pelos arquitetos locais Make Architects (cujo nome indica a inclinação pragmática do escritório), não só é austero em seu desenho, como também promete uma construção econômica, munindo-se da aplicação de materiais reciclados como as placas de cobre que cobrirão a fachada co prisma retangular. O Velódromo recém-inaugurado, projetado pelo Hopkins Architects, pode ser a mais vistosa obra de arquitetura do conjunto construído dos jogos, e delimita uma pequena margem para frivolidades. Na própria descrição dos arquitetos, esse tom fica evidente: “The building seeks to form an elegant response to the brief using simple materials in an efficient manner to meet the client’s aspirations within the available budget”. Seu formato elegante e austero prima pela resolução prática do programa e seu acabamento em peças de madeira traz a imagem de familiaridade com o conjunto construído da cidade. No caso, a busca foi maior pela identidade, em detrimento da busca por singularidade, ‘uniqueness’.

Estádio de Handebol – Make Architects – em construção – http://www.flickr.com/photos/andywilkes/5059373823/sizes/o/in/photostream/

O tom de humildade é premente não só na arquitetura dos jogos, mas dá também um termômetro da produção londrina na última década. Não é um fato qualquer, e de longe não significa uma baixa local. Pelo contrário, a cidade é uma exceção à crise econômica que afeta o continente nos últimos anos, dado o capital injetado para os investimentos nos jogos.

Um caso interessante é o ocaso do novo estádio do clube local de futebol, o Arsenal. Em 2005, a diretoria do clube decidiria por construir um novo estádio, frente à incapacidade de seu tradicional estádio, em Highbury, em receber um maior número de visitantes. Para seu novo Emirates Stadium, fora chamado o escritório especializado Populous, na época chamado HOK Sports. Todavia, o que me interessa contar é o destino de seu antigo estádio.

Highbury Square – Allies & Morrison Architects – 2009
http://www.alliesandmorrison.com/projects/selected/2009/highbury-square/

Numa ação conjunta entre o clube e uma incorporadora, o estádio foi transformado em um conjunto residencial de classe média As arquibancadas foram reformadas, seu exterior e cobertura preservados, e os maiores blocos lá foram erigidos. atrás das arquibancadas laterais (atrás das antigas traves do gol) mais blocos de residências de 3 e 4 andares foram construídos, e o gramado deu lugar à um jardim de natureza contida e geometrizada (contrariando a tradição pitoresca dos jardins ingleses). Cada etapa e detalhe do projeto, desenvolvido pelo escritório Allies and Morrison, demonstra o interesse pragmático do empreendimento, junto à tradição da construção local. Janelas emolduradas, em paredes que não distinguem estrutura e vedação, a utilização do tijolo escuro inglês, até pequenas circulações abertas que lembram remotamente as ruas elevadas do conjunto Park Hills, em Sheffield. No lugar de explorar a eloqüência de um projeto autoral de readequação, o espírito empreendedor casou com a atitude do escritório autor. Mais uma vez, a busca por uma identidade londrina com claros fundamentos historicamente definidos pela arquitetura dos bairros residenciais.


Highbury Square – Allies & Morrison Architects – 2009
http://www.alliesandmorrison.com/projects/selected/2009/highbury-square/

O legado que os jogos londrinos deixarão será de austeridade e sustentabilidade – principalmente de cunho social. Poucas esperanças persistem para o legado dos jogos cariocas. Malgrado a dificuldade de fazer comparações entre as duas cidades – Londres é uma cidade mais completa em termos de infra-estrutura – a intervenção inglesa é o triunfo do planejamento comercial, e por trás de todo o discurso auto-promocional, percebe-se que sustentabilidade significa construir barato, e acima de tudo, manter o empreendimento após os jogos. O desenvolvimento da arquitetura dos jogos de 2016 até então não se apresentaram nem tampouco sustentáveis – o orçamento da intervenção dos jogos cariocas é muito maior do que a londrina – e nenhum projeto apresentou claramente o planejamento para além da data dos jogos. O triste caso do “Engenhão” (Estádio Olímpico João de Havelange), arrendado ao clube do Botafogo, além de ter sido construído com um orçamento totalmente acima do planejado, ainda hoje não é totalmente aproveitado pela população. Seria interessante saber do resultado das iniciativas tanto dos jogos do Rio, quanto para os preparativos da copa do mundo no país, se fosse dado o mesmo espaço para os escritórios locais, compromissados com o desenvolvimento urbano das cidades, da mesma maneira que a oportunidade foi dada em Londres.

Outro aspecto interessante é o projeto de redes de infra-estrutura para os jogos. No caso de Londres, o desafio torna-se solucionar um problema momentâneo da cidade, o aumento de carregamento de passageiros durante os jogos, uma vez que a cidade tem um sistema de transporte público bem difundido. Mesmo assim, o maior empreendimento da ODA (Olympic Delivery Authority) em Londres é o sistema de infra-estrutura de transportes, saneamento e energia. Muitas das pontes, concebidas em parceria com artistas plásticos definidos em concursos públicos, foram construídas para separar o tráfego dos veículos de construção da circulação tradicional da cidade, e durante e após os jogos, serão transformadas em passarelas de pedestres. No caso do Rio de Janeiro, a oportunidade dos jogos é uma segunda chance para estabelecer um sistema de transporte que melhore a situação estrutural do transporte público. Mas as esperanças não são grandes, uma vez que o sistema de metrô subterrâneo, a ser construído para os Jogos Panamericanos, falhou em ser entregue. O Comitê Olímpico Internacional inclusive exigiu das autoridades cariocas um plano alternativo de transporte público, descrente na promessa de real implantação do sistema. Não se sabe, no entanto, se mesmo o plano de transporte baseado em corredores tipo Bus-Rapid-Transit, parte do plano diretor de transportes para 2016, serão realmente implementados. Desse jeito, o que nos resta fazer é pagar o (salgado) preço do ingresso.

Bibliografia digital de escritórios ingleses e empreendimentos recentes
http://www.alliesandmorrison.com
http://www.makearchitects.com/
http://www.carusostjohn.com/
http://www.tonyfretton.com/
http://www.6a.co.uk/
http://www.east.uk.com/
http://www.davidkohn.co.uk/
http://www.adamkhan.co.uk/
http://www.muf.co.uk/
http://www.prewettbizley.com/
http://aru.londonmet.ac.uk/works/
http://www.carmodygroarke.com/

Site dos jogos Olímpicos de Londres
http://www.london2012.com


[i] Tradicional jargão dos arquitetos do ‘star system’ europeu, para definir que somente aquilo que inova, que choca, que causa surpresa pode ser atestado como esteticamente interessante.

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Sobre revista veneza

Revista de arquitetura contemporânea
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Uma resposta para Boring is Beautiful

  1. Eduardo Viana Rodrigues disse:

    Gosto muito das diferentes abordagens dos artigos da revista, sempre estabelecendo contrapontos entre o cenário internacional e o brasileiro. Neste em especial ficou mais clara a questão da produçao espacial numa sociedade mais madura e mais consciente dos legados e valores embutidos em eventos de grande porte.

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