Bjarke Ingels em São Paulo


Bjarke Ingels.
 BIG. Yes is More – An Archicomic on Architecture Evolution.
Köln: Evergreen GmbH, 2010, p. 390

Por Luis Felipe Abbud 

O jovem arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels (1974-) é o fundador do escritório BIG – Bjarke Ingels Group. Após dois anos de trabalho no Office for Metropolitan Architecture em Roterdã, Ingels fundou em 2001 o escritório PLOT junto a seu colega belga Julien de Smedt (1975-), cuja parceria que durou até 2006. A cisão da dupla gerou também o escritório JDS, com o qual Bjarke Ingels mantém a co-autoria de seus primeiros projetos,

Durante seu curto período de existência, o escritório BIG já recebeu inúmeros prêmios e participou de exposições de porte como a Bienal de Veneza (presente de suas duas últimas duas edições) e da Exposição Universal de Xangai de 2010, neste último representando seu país com o projeto do pavilhão e da curadoria de sua exposição.

Bjarke Ingels leciona em cursos de arquitetura e no ano de 2010 demonstrou seu interesse pelo Brasil ao promover uma disciplina em Harvard focada nas conseqüências sócio-econômicas referentes à copa do mundo de futebol em 2014 e dos jogos olímpicos no Rio de Janeiro em 2016.

Durante um coquetel posterior à palestra proferida por Bjarke Ingels em São Paulo[i], com direito a apertos de mão, autógrafos, fotos e trocas de cartão com representantes de grandes construtoras, foi pedido um desenho ao arquiteto. Para quem estava tentando adivinhar com qual dos seus inúmeros e icônicos edifícios ele iria pontuar sua passagem por São Paulo, o estranhamento de ver traços feitos a lápis vindo de um arquiteto conhecido por suas apresentações que fazem intenso uso da computação gráfica só não foi mais estranho que a surpresa pela imagem revelada por seu desenho: uma sereia suspensa por uma grua.

Entendeu ou quer que desenhe?
A atuação do escritório Bjarke Ingels Group

Potencializando os benefícios tecnológicos que configuram toda uma nova época de difusão virtual de projetos de arquitetura por renders e readers, em que poucos cliques podem tanto elevar idéias arquitetônicas a um elevado grau de realismo representativo quanto rapidamente ganhar o mundo pelas ondas da internet, Bjarke Ingels os incorpora e toma máximo proveito da idéia de que um projeto de arquitetura possa valer tanto quanto um edifício construído. Face aos olhos frenéticos e afobados de interessados por arquitetura que podem observar por segundos um projeto na internet sem nem menos saberem se gostam ou não gostam, se é real ou virtual, ou mesmo se um dia Irão vê-lo pessoalmente, o arquiteto parece ter percebido a necessidade de uma sedução maior que prenda seus olhos por um pouco mais alguns minutos.

Para isso o escritório traz uma identidade e uma marca de “grande” impacto: BIG, o Grupo de Bjarke Ingels, fundado em 2006, que paradoxalmente comunica a idéia de uma coletividade composta pelo caldo criativo de jovens arquitetos de todo mundo que por lá passam, ao mesmo tempo que esta é centralizada na figura de uma persona mitica, cujas idéias já garantiram, em tão curto tempo, seu respeito na escala nacional dinamarquesa. A prova da grandeza de sua pro-atividade é o próprio desenho realizado pelo arquiteto durante o coquetel, pelo qual se mostrou preocupado em ilustrar um impacto muito maior do que qualquer realização de ordem arquitetônica: conseguir consentimento do governo dinamarquês para transportar o valioso monumento nacional representado pela pequena estátua da Pequena Sereia, atravessando o mundo de Copenhagen para a Exposição Universal de Xangai de 2010, mais precisamente para dentro do pavilhão projetado pelo próprio escritório.


Edvard Eriksen, Monumento à Pequena Sereia. Copenhague, 1913.
http://international-club-copenhagen.blogspot.com 


BIG, Pavilhão dinamarquês, Xangai, 2010.
http://forum.davidicke.com 

Causando uma pequena revolução arquitetônica na Dinamarca por se tratar do primeiro de vários outros pequenos escritórios que surgiram repetindo uma mesma direção metodológica e representativa, os projetos liderados por Bjarke Ingels são dotados de uma carga plástica que fascina por apresentações sintéticas carregadas de diagramas policromáticos, colagens, imagens sedutoras e auto-explicativas com tamanha eloqüência que dispensariam mesmo a presença do apresentador em uma palestra, não fossem as repetidas piadas para entreter grandes audiências. Mais do que isso, seus projetos efetivamente construídos se mostram extremamente bem sucedidos ao se manterem fieis às suas respectivas estratégias de utilização programática desde sua formulação na etapa conceitual. O conjunto de suas obras traz ainda um exemplo muito estimulante de como uma metodologia de projeto pode incorporar um empreendimento de ordem formal e volumétrica diretamente ligados ao uso físico do espaço proposto, trazendo formas inusitadas derivadas de uma leitura estratégica do problema apresentado pelo cliente, ou mesmo levantado independentemente pelo escritório.


PLOT (BIG + JDS):  Mountain Dwellings – Copenhague, 2008. Diagramas da apresentação do projeto.
http://www.big.dk

Trazendo coerência de identidade para uma produção de tamanha heterogeneidade resultante de uma gama variada de formas e soluções que muitas “evoluem” diante de novos contextos, suas apresentações seduzem clientes e reaproximam pessoas alheias à compreensão de um projeto arquitetônico pela objetividade da leitura, o que inevitável e positivamente chama a atenção para a necessidade de uma reformulação das formas canônicas de planta-corte-elevação-perspectiva que muitas vezes dificulta mesmo a discussão de projetos entre arquitetos.

Sua postura propagandística e multimidiática que incessantemente apresenta sempre o mesmo material produzido pelo escritório em contínuo estado de atualização por meio de exposições, filmes, livros, e-books e do próprio site www.big.dk permite com que seja possível de longe do escritório o rastreamento do esforço de emplacar idéias e reutilizá-las incessantemente até sua efetiva formalização edificada.

Página do livro Yes is More ; Exposição Yes is More no Danish Architecture Centre, 2009; Versão do livro Yes is More em versão de aplicativo IPad: primeiro e-book oficialmente lançado pela editora Taschen.  http://thelastwordbooks.blogspot.com
http://en.wikipedia.org
http://www.big.dk

Seu livro-manifesto Yes is MoreAn Archicomic on Architectural Evolution apresenta as estratégias metodológicas de concepção de projetos do escritório mundo a fora, segundo um balanceamento dialético do problema arquitetônico pela caracterização do projeto baseada na incorporação direta de seus aspectos negativos dados (ou encontrados para além do programa apresentado pelo cliente), em um discurso que se contrapõe à superficialidade da freqüente imposição de uma tabula rasa cultural sobre o dado contexto a ser projetado por parte do arquiteto, que, na maioria dos casos, somente ocorre quando este deliberadamente fecha seus olhos (ou dos espectadores de suas apresentações) para aquela problemática pré-existente mais complexa de ser resolvida, quase sempre relacionado ao fenômeno resultante da ocupação humana e sua condição cultural.

(…) ao invés de nos lamentarmos sobre os sistemas ou obstáculos ou falhas, queremos explorar o que acontece quando você diz Sim para a realidade, quando você diz Sim para a cidade, ou mesmo quando você diz Sim aos vizinhos que reclamam, ou simplesmente diz sim à vida quando quer que você trombe com ela e descobrir tanto mais em retorno (…)[ii]


Relação dos projetos do escritório BIG apresentados durante a palestra – vide formato integral das apresentações no site http://www.big.dk. 

Na Dinamarca não tem macaco
Considerações sobre a palestra de Bjarke Ingels

Como sustentabilidade pode tornar a vida mais divertida?”[iii]

Se Yes is More não é somente uma evolução da arquitetura fechada em sua própria ciência, durante a palestra intitulada “Sustentabilidade Hedonística” lecionada por Bjarke Ingels em São Paulo, o arquiteto afirmou também acreditar em uma “evolução da sociedade”. Diante do panorama dinamarquês avançado na resolução de questões de ordem social, resultante em grande parte do privilégio de manter afastadas para longe de suas fronteiras as contradições sociais conseqüentes dentro da conjuntura econômica do capitalismo global, pode-se dizer que um empreendimento intelectual de um escritório de arquitetura nesse país concentrado no tema da sustentabilidade se torna uma missão plausível.

O escritório BIG conseguiu durante, novamente, seu curto período de existência, a imagem de grande responsabilidade dentro um país de pequenas dimensões e detentora de uma condição climática de invernos rigorosos, cuja cultura moldou uma disciplina humana característica de pais Norte-Europeu ao transformar a necessidade de se adequar às obrigações de sobrevivência em desenvolvimento tecnológico e erudição. A Dinamarca é consabidamente um dos países no mundo com os mais altos índices de igualdade social, um estado provedor de educação e saúde para toda população. Sua capital Copenhague, cidade das torres, lagos e parques, é povoada com pessoas praticando cooper às 16:00 horas da noite a menos de 10 graus: um contexto de fazer inveja a arquitetos busca de mais e melhores espaços públicos em contextos tão deficientes neste aspecto como o da capital paulistana, no presente caso.


PLOT (BIG + JDS): Copenhagen Harbour Bath, 2003. 
http://www.big.dk

Incluir projetos tão lúdicos e com formas tão sensíveis ao uso humano sob a égide da sustentabilidade, entendida rapidamente enquanto a manipulação responsável de recursos, sejam estes naturais ou humanos[iv], é certamente um estímulo para aqueles que precipitadamente possam associar o termo a condições restritivas ecologicamente corretas para um exercício de maior liberdade poética no projeto arquitetônico ao lidar com materiais reutilizáveis, baixo custo de usinagem, etc. Porém, se a máxima Sustentabilidade Hedonística, tema da palestra, se resumir a um superficial sinônimo de ocupação intensa de determinado edifício, a atitude de Bjarke Ingels englobar os primeiros produtos do escritório sob tal égide corre o perigo de se transformar em uma atitude puramente propagandística da qualidade de seus projetos, não por isso menos inspiradoras, porém nem tão sustentáveis quanto um centro cultural ou parque de diversões enquanto forma de potencializar o programa de utilização do lote ao dinamizá-lo por seu teor lúdico, daí o termo “hedonístico”.


PLOT (BIG + JDS): Maritime Youth House – Copenhague, 2004. O projeto transforma a cobertura do edifício em um espaço de acesso público: um deque de madeira que pode ser utilizado como escorregador. http://www.architecturenewsplus.com

Deixando-se de lado a sedução policromática que ilustra a coerência desejada em seu discurso, afirmar que um edifício intensamente povoado pelo conteúdo humano seja um sinônimo de uso sustentável talvez seja uma aproximação precipitada. Em outras palavras, não seria uma questão pertencente ao universo de discussão da sustentabilidade, mas sim do mérito próprio do bom projeto de arquitetura.

De todo modo, se for observada a maneira com a qual o escritório busca ilustrar sua preocupação com uma possível sustentabilidade social, é de causar certo estranhamento a grandeza do que se considera o êxito de uma evolução social quando a propaganda de um edifício sustentável mostra elevar (ou rebaixar) o termo “hedonismo” a suas conotações corporais mais individualistas, pela oportunidade de explorar o corpo em situações repletas de adrenalina, como foi ilustrado no vídeo My Playground[v]. O eletrizante vídeo, cuja intenção parece se bastar em demonstrar as potencialidades acrobáticas das formas e espaços projetados pelo escritório para o conjunto habitacional Mountain Dwellings, ao mesmo tempo se transforma em um exemplar de afastamento de uma preocupação do compartilhamento coletivo de uma experiência social mais ampla, se não diretamente propagandeada, ao menos esperada de uma doutrina tão inclusivista quanto Yes is More, não perdendo de vista, novamente, a cultura de uso de espaço público avançada como a do contexto dinamarquês.[vi]


Imagem do filme My Playground.
BIG. Yes is More – An Archicomic on Architecture Evolution. Köln: Evergreen GmbH, 2010, p. 388

Sob essa ótica, o argumento de uma evolução social pautada pela sustentabilidade parece ganhar um pouco mais de credibilidade na medida em que a série de projetos apresentados por Bjarke Ingels começam e revelar um lado positivo da postura de incessante exibicionismo da linha do tempo de projetos desenvolvidos pelo escritório: a evidencia do quanto seus projetos mais recentes conseguem finalmente unir de forma madura em seu discurso os aspectos de uma arquitetura que se propõe responsável por questões ecológicas a uma saudável interação física direta com o edifício, e indo além ao atingir uma poética que extravasa os limites convencionais propositivos de um projeto de arquitetura ao mesmo tempo que os incorpora e os propõe enquanto elementos programáticos como reaproveitamento de recursos energéticos, reutilização de lixo, e outros aspectos semelhantes ainda na etapa conceitual de criação do edifício. Vide os projetos Stockholmsporten e Amageforbraendingen recém-vencedores de competições.


BIG: Stockholmsporten – Estocolmo, 2010. O projeto transforma o programa original da competição (um monumento que pontuasse um cruzamentos de estrada ao norte de Estocolmo) em um objeto equipado para coletar energia solar e eólica abastecendo a região, alem de ressaltar o valor paisagístico do entorno.
http://www.big.dk

Outro projeto mais recente que merece ser citado dentre os apresentados durante a palestra por revelar maior sensibilidade para inserção social presente em assuntos políticos que fogem do incessante exibicionismo de sua, não por isso menos louvável, afinação para lidar com clientes que atingem a ordem de autoridades locais mundo afora, é o projeto na Estônia para prefeitura da capital Tallinn. A proposta para o edifício traz em sua tônica uma leitura poética de inclusão direta de participação pública, estimulando a presença de uma mobilidade política ativa ao propor um espelho que reflete do lado de fora a imagem do interior da assembléia de seu parlamento.


BIG, Tallin Town Hall, 2009.
http://www.big.dk 

Bjarke Ingels veio mesmo a São Paulo?

A presença de uma postura tão ativa e criativa como a de Bjarke Ingels no panorama da arquitetura contemporânea é certamente inspiradora, e sua presença física em São Paulo certamente revela algum interesse em expandir sua arquitetura até nosso alcance. Mas se a possibilidade de ganhar o mundo com seus projetos permite colocar em prática sua metodologia Yes is More de análise e entendimento contextos culturais e incorporar suas respectivas problemáticas locais como a paulistana, e se a colocação em prática de suas idéias e testá-las em nosso contexto é sem dúvida um exercício necessário, a palestra do jovem arquiteto dinamarquês certamente careceu de debate, sugestão de análise ou qualquer referência que permitisse exercitar por instantes a possibilidade de aplicação seu potencial estratégico em soluções que nos são mais caras e emergentes.

Valeria ainda lembrar que após sua disciplina recentemente lecionada na Universidade de Harvard, durante a qual teria estudando intensamente por todo um semestre o contexto brasileiro, é de se imaginar que o arquiteto teria espaço suficiente para trazer em sua bagagem certo material para estimular sua platéia de estudantes com ao menos algumas de suas indagações sobre o assunto, mas infelizmente, ao que tudo indica, na ocasião o arquiteto preferiu se resguardar no conforto de seu universo hermético de apresentações. Pena.

Luis Felipe Abbud é arquiteto (FAUUSP 2010).


[i] Palestra promovida pelo centro acadêmico da Faculdade de Arquitetura do Mackenzie no dia 30 de Março de 2011.

[ii] No original: (…) rather than whyning about systems or obstacles or failures, we want to explore what happens when you say Yes to reality, when you say Yes to the city, even when you say Yes to the complaining neighbours, or you simply say Yes to life whenever you bump into it, and to discover so much more in return (…). Fonte: depoimento sobre a exposição Yes is More – Close up: BIG (Bjarke Ingels Group). Copenhague: Danish Architecture Center, 2009. Link na internet: http://english.dac.dk/visArtikel.uk.asp?artikelID=4737

[iii] no original: ‘How sustaniability can make life more fun?” – frase de abertura da palestra de Bjarke Ingels em São Paulo.

[iv] Wikipédia explica: “Sustentabilidade é a habilidade, no sentido de capacidade, de sustentar ou suportar uma ou mais condições, exibida por algo ou alguém. É uma característica ou condição de um processo ou de um sistema que permite a sua permanência, em certo nível, por um determinado prazo. Em anos recentes, o conceito tornou-se um princípio, segundo o qual o uso dos recursos naturais para a satisfação de necessidades presentes não pode comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras, o que requereu a vinculação da sustentabilidade no longo prazo, um “longo prazo” de termo indefinido, em princípio.”.

[vi] Em defesa dessa postura do programa lúdico como forma estratégica de catalizar o uso público de determinado espaço, valeria mencionar que são poucos os momentos, no nosso caso, em que a arquitetura paulista buscou exercita-lo. Vale aqui lembrar o projeto de Lina Bo Bardi para um tobogã público para o Vale do Anhangabaú, de 1981. Vide o projeto no seguinte link:

http://cosmopista.wordpress.com/2008/04/13/anhangabau-toboga-lina-bo-bardi/

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Revista de arquitetura contemporânea
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Uma resposta para Bjarke Ingels em São Paulo

  1. anthony ling disse:

    parabéns pelo blog, os textos críticos sobre projetos arquitetônicos estão muito bons! mas este artigo especificamente entra em questões sociais como políticas sociais e sustentabilidade, e parte de dois princípios para validar seus principais argumentos: 1) sustentabilidade na arquitetura é algo inerentemente bom e 2) o estado social avançado da dinamarca e se deve pois se afastou do capitalismo e manteve uma postura socialista até hoje. sendo assim, para ter um ponto de vista diferente sobre esses dois princípios sugiro para o primeiro a leitura deste post do meu blog (http://bit.ly/iZDs5i) e o acesso a este ranking (http://www.heritage.org/index) para o segundo, que mostra que a dinamarca está, atualmente, mais próxima de um sistema de capitalismo de livre mercado do que os EUA, apesar dos altos gastos governamentais em programas sociais. abraços!

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