Perto de casa


Blocos de post-it em formato de casinhas.
pt.wikinoticia.com

Por Clevio Rabelo

Novamente um texto em que tentamos aproximações. Seguimos com a proposta de tentar falar de coisas novas, porém já insinuadas no imaginário recente da arquitetura contemporânea. Crítica como sugestão.

Tenho me preocupado bastante com o significado e com as configurações espaciais da casa unifamiliar. Nesta observação, muitos detalhes se avolumam, mas um detalhe me intriga há um tempo: a presença recorrente de uma forma, que considero arquetípica, disseminada na resolução de partidos não apenas de casas em si, mas de uma série de outros programas atuais.

Gostaria de escrever sobre o retorno da forma “casa”, aquela desenhada pelas crianças desde as mais ternas idades e composta geralmente de um quadrado encimado por um triângulo que lhe dá abrigo.  E de situar tal regresso dentro do infindável repertório de conformações arquitetônicas recentes, nas quais linhas retorcidas, implexas e fractais vêm sendo o principal elemento discursivo-filosófico relativo à presença da arquitetura em nossa sociedade. Uma condição que se alterna entre um pólo de extrema fragilidade em relação aos últimos suspiros da utopia e entre outro, igualmente anêmico, de intensa absorção de todos os aspectos da profissão pelo mercado. Em outro texto podemos discutir os pontos principais de ambas as posições.

Voltemos às imagens dessa arquitetura. O que poderia significar o retorno dessa forma, quando, de partida, acreditamos nunca tenha sido ela realmente apagada das nossas memórias?

Presentes em projetos de arquitetos do período “pós-moderno”, como Michael Graves e Aldo Rossi, naquele momento a forma-casa respondia por perguntas feitas a respeito dos tipos na cidade. Ela pedia pela variedade das volumetrias tradicionais, sendo a rua e a quadra elementos restauradores de uma experiência urbana diversificada, comunitária, próxima à história e, quem sabe, com mais significado comunicativo em relação ao antípoda moderno/modernista. Não foi à toa, portanto, que esta forma esteve muito presente nos subúrbios modelares do “Novo Urbanismo” americano.


Aldo Rossi, Centro Fontivegge, Perugia, 1988.
architettiimperia.blogspot.com


Michael Graves, Escola St. Coleta, Washington D.C, 2006.
arkinetia.com

Mas o que dizer dessa nova safra de projetos, já chamada pelas editoras comerciais de “Novo Minimalismo”, nos quais essa forma têm sido recorrente? Diferentemente do período mais próximo aos anos 1980, essas novas obras poucas vezes têm como sítio entornos muito urbanizados ou mesmo aglomerações do tipo condomínio. Suas locações são muito mais espaços abertos, com amplas paisagens naturais, ou subúrbios muito pouco densos como os do interior europeu. O bucolismo de uma nova vida não-urbana ou ideias de um novo viver na cidade comparecem nesse debate que, se iniciado pelo viés formal, parece conter mais elementos de estruturação.


Aires Mateus, Casa Areia, Comporta, 2010.
airesmateus.com

Creio, embora com muitas dúvidas, que tais edifícios colocam inúmeras questões sobre a arquitetura nos anos 2010. De um lado, eles nos parecem uma reação às complexidades formais nas quais têm se apoiado boa parte do jet set arquitetônico, assim como retomam a crítica pós-moderna a respeito do cubo branco destituído da história. A forma-casa funciona como elemento arquetípico, a suscitar valores familiares e comunitários comuns tanto ao discurso dos anos 1960 e 1970 quanto à eco-publicidade da “onda verde”.

Recolocar o tema da casa na cidade, da casa no campo, e os seus contrários (como campo e cidade se apresentam na casa) parece ser um dos objetivos dos arquitetos. Ao ideário das tecnologias sustentáveis acrescenta-se uma nova tomada do popular e do vernáculo pela arquitetura contemporânea. Esse o caso do jovem estúdio inglês Feilden Fowles – autor da casa abaixo, cujo orçamento está descrito em inimagináveis 270 libras (750 reais) -, que tem se empenhado em descrever os procedimentos de uma “arquitetura do ambiente” ao resgatar técnicas locais realizadas através de procedimentos industriais. Na Alemanha, destacamos o exemplo do escritório Soho Architektur, que repete a forma em vários projetos, embora sua ênfase seja mais no aporte tecnológico do que na tectônica.


Feilden Fowles,Residência Ty Pren Enviromental House, Brecon Beacons, 2009.
feildenfowles.co.uk


Haworth Tompkins, Dovecote Studio, Suffolk, 2010.
haworthtompkins.com

Esses projetos podem tanto utilizar materiais diversos quanto reduzir essa cartela ao mínimo. No entanto, um procedimento formal recorrente é a intenção em tornar o teto um elemento muito pouco marcado em relação aos fechamentos. O tratamento espacial dos interiores quase sempre é mais complexo que o recipiente exterior e a quantidade de aberturas varia um pouco, mas tende a se reduzir, talvez porque essa arquitetura queria reforçar sentidos de solidez no manipular volumétrico. Na estrutura e nas superfícies, madeiras certificadas e metais variados, manejados tendo em vista um ordenamento industrial das peças, são constantes.


Soho Architektur, Haus Bru, Stuttgart, 2008.
soho-architektur.de

Um último aspecto do uso da forma-casa está presente quando ela é utilizada para resolver programas maiores ou mais complexos. Justaposições horizontais de vários módulos, quase sempre com pequenas variações na angulação individual dos tetos, e sobreposições verticais são realizadas.  No empilhamento, rotações e torções leves das volumetrias são tentadas, como já imaginava desde 1920 o arquiteto expressionista Wenzel August Hablik em um edifício de exposições (BEHNE, 1994: 101) semelhante ao novo show-room VitraHaus, de Herzog e De Meuron.

Nessas situações, que os projetos abaixo ilustram, o tema da cidade reaparece. O juntar unidades parece intencionar a fabricação de cidades em sítios onde elas quase não existem ou mesmo onde elas realmente não existem. Porque não optar por uma cobertura única na solução do projeto do Atenastudio? Ou porque empilhar módulos em altura quando terreno não parece ser um problema para a Vitra?


Atenastudio, Escola Primária, San Vito di Cadere, 2010.
atenastudio.it


Herzog & De Meuron, VitraHaus, Weil am Rhein, 2010.
vitra.com

A forma-casa deve reaparecer em muitos projetos futuros e o que fica no final é que talvez a arquitetura contemporânea tenha dificuldades em lidar com os limites entre cidade e campo, aquela mesma velha relação central na história na modernização. Se alguns projetos rejeitam o cosmopolitismo da forma-cubo moderna e citadina como tipos históricos, outros simulam no subúrbio e no ambiente rural comunidades que talvez nunca tenham existido ali, ou que sempre existiram e que, só por isso, não precisariam ser mimetizadas pela mão da técnica industrial.

De resto, achamos curiosa a possível menção ao expressionismo por parte de Herzog e De Meuron no projeto da VitraHaus alemã. Estariam eles focalizando, ao desenhá-la, sentimentos interiores, a natureza, o popular e toda espécie de angústia individual perante a sociedade moderna industrializada?


Wenzel August Hablik, Edifício de Exposições, Itzehde, 1920.
Behne, A. “1923, la construcción funcional moderna”, Barcelona, Ediciones del Serbal, 1994.

Bibliografia:

– BEHNE, A. “1923: La construcción funcional moderna.” Barcelona, Ediciones del Serbal, 1994.

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