Arquitetura e o Japão (nas últimas semanas)


Tóquio, Terremoto em 1923.
libraryphoto.cr.usgs.gov

Por Rafael Urano Frajndlich

Os desastres que ocuparam o Japão surpreenderam tanto na sua dimensão (e variedade), que é difícil imaginar que decorreu menos de um mês desde o primeiro terremoto. O estado de calamidade persiste, e talvez fosse muito apressado trazer ao campo da arquitetura um evento tão recente. Entretanto, a ampla gama de imagens geradas cobrindo os incidentes e a cultura de construções emergenciais no Japão faz com que o tema já mereça comentários.

O arquiteto Shigeru Ban se adiantou buscando angariar dinheiro para viabilizar a construção de seus abrigos feitos em peças de papel. Suas estruturas são o produto de uma pesquisa ampla que remonta aos anos noventa, quando o arquiteto foi chamado para desenvolver um protótipo para refugiados na Ruanda. Ban vem refinando uma tecnologia de tubos feitos em papel que podem ser utilizados para se fazer estruturas leves e rápidas, que sirvam ao caráter emergencial do escopo.

O projeto construído na África era praticamente uma cabana: os tubos de papel serviam de estrutura rápida para que se jogasse uma lona e desse uma cobertura de apoio a pátios de hospitais. Tal tecnologia seria mais desenvolvida nas experiências de casas feitas para vítimas do terremoto de Kobe, no Japão, em 1995. Então, a gama de componentes utilizados nos pequenos edifícios fazia com que o abrigo ficasse com um caráter propriamente residencial. Os mesmos tubos de papel servem agora como estrutura e fechamento, a cobertura de lona se apóia em uma treliça do mesmo material que remonta à primeira cabana, construída em Ruanda. O piso era elevado com caixas de cerveja, recolhidas no sítio do terremoto.

A experiência é um dos grandes marcos na carreira do arquiteto japonês Shigueru Ban. Sua estrutura de papel, utilizada em outros projetos, tornou-se uma de suas marcas. O abrigo, por sua vez, foi exportando para a Turquia, em 2000, e para a Índia em 2001, com algumas alterações circunstanciais.

Os eventos das semanas passadas fizeram o abrigo de Ban mais uma vez voltar à produção. Ainda não foram publicadas imagens do abrigo construído, mas o site do arquiteto já divulga os tubos de papel em uso nos ginásios que abrigam as vítimas do terremoto. As estruturas agora não fazem cabanas, mas servem de moldura para que se passem tecidos, dando alguma privacidade às famílias, relembrando vagamente as divisórias translúcidas de uma casa tradicional japonesa.

A pesquisa da arquitetura de abrigos que Shigeru Ban tem em andamento pode ser vista como o desdobramento de uma longa pesquisa japonesa em construções compactas e rapidamente erguidas. É preciso atentar que as casas soltas de certo modo se amparam na tradição japonesa dos anos sessenta. Os projetos habitacionais de Kisho Kurokawa, o urbanismo da Baía de Tóquio de Kenzo Tange são exemplos de alta tecnologia ladeada por uma radical idéia de células autônomas articuladas. Tal idéia, claro, não era exclusiva dos japoneses (basta atentar para o Archigram na Inglaterra, entre outras correntes), mas no Japão tais estudos tem um pano de fundo da arquitetura de rápida intervenção. Kenzo Tange tem um projeto pouco divulgado de acampamentos em Meca, na Arábia Saudita. A cidade tem um fluxo muito intenso durante festividades religiosas, que justificaram o projeto de habitações temporárias. O arquiteto japonês apresentou uma série de componentes articuláveis sustentados em pórticos contínuos. A variedade de tipologias fazia do projeto uma sucessão de ruas e quadras do acampamento, que estavam seguindo o plano diretor para Meca, projeto também de Tange.

O projeto de Ban difere do de Tange, na medida em que privilegia detalhes da unidade, em detrimento da intervenção urbana. A sua preocupação, no que concerne a habitação temporária, é em pequena escala: desde a rapidez do transporte até questões cotidiana como a privacidade. A habitação emergencial de Ban não é uma habitação mínima, nem uma célula em uma cidade planejada. A velocidade das construções não é parte de uma pesquisa outra do escritório: é um foco de Ban; suas estruturas de contêineres, suas casas de alto padrão também feitas em tubo de papel revelam uma vontade de se fazer da construção de emergência motor de suas outras atividades profissionais. Se o Japão é um arquipélago que frequentemente enfrenta difíceis provações, Ban fez delas parte de seu trabalho: a perspectiva delas está presente na maior parte de suas obras.

A catástrofe iminente, os destroços resultantes da destruição imediata, é um tema da arquitetura japonesa. Arata Isozaki, arquiteto de Tóquio, fez um breve itinerário da recorrência das formas ruinosas no Japão. “Pode-se afirmar que nos anos setenta, as ruínas aparecem de modo obsessivo, pervade um sentido de nostalgia. Nos anos oitenta, veio uma grande mudança no campo da tecnologia: descobriu-se que nos meios de comunicação eletrônicos podem existir espaços alternativos. Estranhamente, todavia, as paisagens urbanas do futuro que mostravam o cyberespaço eram, mais uma vez, ruínas.” O próprio Isozaki em seu centro cultural de Tsukuba faz uma alusão direta aos destroços, desenhando uma praça feita de fragmentos de concreto. A memória das antigas tragédias serviram para lapidar um próprio senso estético sobre a destruição.

Neste sentido, Shigeru Ban toma esta herança de citar a catástrofe, privilegiando menos as ruínas do que a leveza das intervenções emergenciais. O antagonismo material  do papel torna-se então ainda mais eloquente: a arquitetura dos anos sessenta no Japão, especialmente aquela de Tange e de Isozaki, se pautavam por um bruto assentamento no solo utilizando-se da plástica do concreto armado – que se prestava para representar também a sua ruína. Ban em suas intervenções utiliza um elemento quase imaterial, abrindo caminho para uma indagação sobre a fixação das gerações anteriores na solidez dos prédios.

 

***

As construções no Japão devem seguir normas muito rigorosas contra terremotos. Folheando revistas japonesas de arquitetura como A+U, ou JA, encontram-se mesmo nos cortes dos menores edifícios grandes fundações contínuas sob a estrutura. O assentamento em terra firme não garante a estabilidade do prédio ao longo dos anos. É comum que o arquiteto que visite as obras conhecidas de arquitetura japonesa se surpreenda com o tamanho dos pilares, com as dimensões das paredes – destoando da leveza dos fechamentos tão elegantes disponíveis no mercado de construção civil do país. A estrutura dos prédios estão sempre a lembrar a iminência de uma calamidade.

Tais medidas se mostraram eficientes: os edifícios, mesmo abalados, continuam em Tóquio. Mesmo não sendo o lugar central onde se acometeu a tragédia (e tendo em conta que cidades inteiras foram varridas do mapa pela Tsunami), a capital do país foi especialmente testada devido aos seus enormes arranha-céus. Neste sentido, um vídeo muito eloqüente foi amplamente divulgado durante a semana, onde são filmadas algumas torres da metrópole durante os tremores. Registrando de baixo para cima, o ângulo remonta aos filmes de ficção científica, onde as altas torres citavam a inevitabilidade de um progresso que transformaria para sempre as cidades. O arranha-céu, símbolo excelente dos grandes centros urbanos, com suas lajes repetidas até onde a gravidade permite, aparece no vídeo fazendo amplos movimentos, parecendo-se leves monolitos, dançando gigantescos na paisagem. Traindo sua rigidez, acabam por sugerir também o seu próprio desaparecimento, sua evanescência, como em um conto de Calvino.

Outras cenas mais dramáticas mostram as ondas engolindo cidades, o Arch Daily publicou um já memorável vídeo na Midíateca de Sendai de Toyo Ito sofrendo os abalos (os forros tiveram grandes danos, mas os pilares metálicos seguraram o prédio). No vídeo em Sendai, a câmera no chão passeia somente pela força dos tremores, mostrando rápidamente o espaço do edifício, os móveis volantes deslizando pelas mesas.

Acredito que essas imagens – certamente mais valiosas do ponto de vista documental – não podem competir com este vídeo dos edifícios dançantes. Ele é em si uma peça artística; para além da destruição (sempre dramática), o cinegrafista pautou-se por mostrar como até as coisas que aparentam ser mais permanentes em nosso mundo contemporâneo são vulneráveis – e não como uma metáfora simplista, mas de modo bem concreto.

Na oscilação destas torres reside muito do interesse da arquitetura japonesa pela transitoriedade. É preciso sempre citar esta vulnerabilidade. As estruturas de papel de Ban são um exemplo muito claro, mas se pode lembrar as transparências do Sanaa na Ilha de Inujima, os pavilhões em madeira de Kengo Kuma. Estes projetos contêm uma leveza que põem  em discussão o progressismo de uma nação tão bem estabelecida no mercado mundial como a japonesa, ponderando sobre quão etérea não é esta condição. Os projetos dos metabolistas, as mega estruturas de Tange e de Isozaki, queriam que o Japão da reconstrução pudesse tomar sólido controle da natureza – e politicamente se firmar como desprendida da violenta destruição de seu território durante a guerra. A nova geração parece não ter mais tal pretensão. A busca pela leveza (e velocidade de intervenção) destes parece preferir um caminho oposto, colocando-se como comentadores de uma situação que não obstante o passar dos anos, sempre recorre, que é o da própria calamidade. Os eventos recentes, neste sentido, têm o gosto de uma dura e inevitavelmente esperada atualização.


Edifícios sentindo o abalo do terremoto.


Shigeru Ban, Abrigo em estrutura de tubo de papel, Ruanda, 1995.
shigerubanarchitects.com


Shigeru Ban, Paper log houses, Kobe, 1995
shigerubanarchitects.com


Kenzo Tange, cidade acampamento, Meca, 1974
“Kenzo Tange”, Barcelona, GG, 1978.


Kenzo Tange, cidade acampamento, Meca, 1974
“Kenzo Tange”, Barcelona, GG, 1978.

Bibliografia:

– “Case di carte”, In. Abitare, n. 362, março de 1997, pp. 130-133.
– Isozaki, A. “Fratture”, In. “Lotus” n.93, 1997, pp. 34-45.
– “Kenzo Tange”, Barcelona, GG, 1978.
– shigerubanarchitects.com. Acessado em 03/04/2011, às 22:00.

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Uma resposta para Arquitetura e o Japão (nas últimas semanas)

  1. carolina disse:

    rafael sempre preciso

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