Morte e Vida do Cinema de Rua


http://www.sugimotohiroshi.com/theater.html
– Theaters

I’m a habitual self-interlocutor. Around the time I started photographing at the Natural History Museum, one evening I had a near-hallucinatory vision. The question-and-answer session that led up to this vision went something like this: Suppose you shoot a whole movie in a single frame? And the answer: You get a shining screen. Immediately I sprang into action, experimenting toward realizing this vision. Dressed up as a tourist, I walked into a cheap cinema in the East Village with a large-format camera. As soon as the movie started, I fixed the shutter at a wide-open aperture, and two hours later when the movie finished, I clicked the shutter closed. That evening, I developed the film, and the vision exploded behind my eyes.

– Hiroshi Sugimoto

Por Luiz Florence

Se o cinema redefiniu a estética da arte moderna, principalmente a partir do pós-guerra, ela o fez de maneira que a expressão áudio-visual se difundiu como prática artística e no cotidiano moderno. Na mesma medida em que sua fruição se desmistificou, sua ritualística se democratizou. Sua relação com a simbologia do luxo e da sofisticação se evanesceu. Diferentemente do teatro e da música, o cinema parece ter se popularizado para sobreviver. Não só como evento, mas em todos seus aspectos, principalmente nas instalações espaciais. O Cinema é a arte mais popular e difundida na atualidade.

O advento da transmissão de televisão retirou muito da força social do cinema como veículo de informação. Nos Estados Unidos, o cinema foi mecanismo de divulgação do progresso da máquina de Guerra americana na Europa. Os expectadores vestiam Black-tie e vestidos longos. Progressivamente, o cinema se popularizou, mas perdeu também espaço para a televisão. Sua força manteve-se como evento social, ao atualizar seu formato de diversas maneiras, seja incorporando o automóvel na construção de seu espaço – cinemas ‘drive-in’ (imagem de entrada) – seja incorporando novas tecnologias de projeção, como projeções tridimensionais e sistemas de som estéreo, em repaginadas versões, sempre adicionando inovações que levariam a experiência do cinema a patamares cada vez mais próximos da realidade.


Cine Olido (1957 – ). foto de 1997. fonte: http://salasdecinemadesp2.blogspot.com

Em São Paulo, tivemos a experiência de cinemas como o Cine Comodoro, fundado em 1959, que divulgava a tecnologia do cinema em três dimensões, e grande melhoria na tecnologia de som da sala. Apelidado de “Cinerama”, em virtude de ser uma filial de uma rede de salas de cinema norte-americanas, o Comodoro anunciava ao espectador a promessa de colocá-lo dentro do filme. O Cinemascope, uma tecnologia importada, com uma proposta de difundir a cultura cinematográfica americana para os paulistanos, o Cinerama era um espetáculo de imagem também fora da tela. Na época, o espetáculo social do cinema ainda suportava um arcabouço de evento social de grande porte. Cinemas como o Comodoro significavam uma tática mais direta da indústria de Hollywood em difundir-se na cultura brasileira, afinal, era a única indústria que tinha os recursos para produzir filmes nesse patamar tecnológico.


Cine Comodoro. fonte: http://salasdecinemadesp2.blogspot.com

São Paulo nas décadas de 1940 e 50  teve sua era de glamour associada ao cinema. Salas de grande porte, dotadas elegância e suntuosidade modernista foram implantadas na cidade. Tivemos o Cine Olido, o Marabá, a maioria situada no centro da cidade. O arquiteto Rino Levi, assinou algumas salas emblemáticas desse período, como o UFA-Palácio dotado de mais de 3 mil assentos, o Cine Ipiranga, e o gigantesco Cine Universo, com mais de 4 mil assentos. O arquiteto se destacou pela habilidade em administrar a eficiência acústica e visual das salas.


Cine Ipiranga, Rino Levi (1943 – 2005). Detalhe do balcão.

Na década de 1960 as primeiras salas de cinema de arte são implantadas, como o Cine Bijou, na Praça Roosevelt. São salas significativamente menores que as antecessoras. O cinema de arte estava ligado à cultura jovem estudantil que crescia na cidade, interessada no ativismo político e no questionamento estético da arte e cidade. Mas o perfil do cinema de arte não era o mesmo de Hollywood. Você não enche uma sala de cinema de 3 mil assentos com François Truffaut e com Pasolini. É a contra-cultura do cinema, claramente sem as pretensões demográficas do cinema-catástofre.

Ao dizer pretensões demográficas, minha intenção é também dizer democráticas. A receita do cinema ‘blockbuster’ é simples, e por isso muito eficiente. A emoção simples é a mais fácil de se fazer entender. A mensagem de Hollywood é simples porque tem que vender rápido e em grande quantidade. Não significa que é ruim, eu mesmo sou um fã de alguns filmes arrasa-quarteirão, de explosões e heróis planificados. Mas estes são filmes de roteiro reproduzido, planejado para agradar o público. O cinema de arte propõe algo diametralmente oposto. Ele propõe a inquietação. Começa nessa época a diferenciação entre dois tipos de público de cinema.
Hoje, o momento faz-se outro para o cinema. O espaço físico não mais se sustenta financeiramente sem a capacidade de tirar proveito financeiro da reunião social que o cinema agrega. Somente em Shopping Centers, espaços confinados direcionados ao consumo, é que vemos novas salas de cinema sendo implantadas. O cinema de rua é uma tipologia de espaço em extinção e somente sobreviverá se o interesse público se manifestar por vias extraordinárias.

A trajetória do cinema Belas Artes, localizado na confluência de duas grandes vias de deslocamento da cidade, resume as transformações do cinema de rua em São Paulo. Originalmente fundado em 1958, como cine Trianon, a construção do cinema antecedeu a reforma da avenida Paulista e a transposição sem semáforo com a rua da Consolação. Em 1967, o cinema se repaginou e mudou de nome para Belas-Artes. Mas seria somente com a gestão da Sociedade Amigos da Cinemateca, iniciada neste ano, que o Belas Artes assumiria sua curadoria que lhe daria o perfil atual, e sua conformação de 6 salas, ao invés de 3, anos depois. Os filmes projetados na noite de reinauguração após a reforma de 1980 foram O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, A carroça, de Karel Kachina, Pedro, o Negro, de Milos Forman, Os Cachimbos do Adultério, de Voitech Jasny e O Acusado, de Jan Kadar e Elmar Klos. Reduzir o tamanho das salas fora essencial para a mudança de tipologia de filmes. O trio Belas Artes, a passagem subterrânea onde hoje existe um sebo, e o Bar Riviera (hoje fechado) representaram durante anos um reduto da classe artística e intelectual de São Paulo, frequentado por Clarice Lispector a Chico Buarque. Em 2004, daria início o processo de reforma para o espaço atual, protagonizado por André Sturm, em parceria com o HSBC e a produtora O², e projetado pelo arquiteto Roberto Loeb. Com altos e baixos em público, e presente numa área da cidade cada vez mais valorizada, o Belas Artes sofre a pressão do mercado imobiliário para se converter em um magazine (curiosamente, já existe um magazine ao lado). A sina do Belas Artes pode ser a mesma de cinemas de rua como o Gemini, o cinema do Copan, que já foi igreja evangélica, agora está vazio, ou o Lilian Lemmertz, que fechou também recentemente suas portas. Ou poderá contrariar as expectativas gerais e manter-se, tal qual o Lumière, localizado no bairro do Itaim. Tudo depende da direção na qual a opinião pública caminhe. Os equipamentos do cinema, as pipoqueiras, e o precioso acervo de filmes do cinema serão doados ao departamento de áudio-visual da ECA-USP, caso o tombamento idealizado pelos proprietários do cinema não aconteça. Caso aconteça, será um interessante precedente de escolha deliberada por preservar não somente uma construção (essa no caso menos relevante), mas sim uma atividade de difusão cultural.

Na sociedade atual, ter acesso a um filme mesmo antes de estrear nas salas de cinema no Brasil é relativamente fácil, dado o acesso ao banco de dados informal da internet. Porém a experiência descrita pelo fotógrafo Hiroshi Sugimoto não existe fora deste tipo de espaço. Com o desaparecimento do cinema de rua, o principal reduto do cinema de arte, levará consigo a discussão pública sobre o a vertente mais ousada da arte áudio visual, e nos deixará com as migalhas de cinemarks e Imax, em cinemas-disneylândia. É só esperar o próximo filme-catástrofe.


Cinema Belas Artes no dia da última projeção. Fotos Luiz Florence

Esse artigo foi viabilizado pelo acesso ao notável banco de dados do blog de Antonio Ricardo Soriano, o Salas de Cinema de São Paulo: http://salasdecinemadesp.blogspot.com.

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Revista de arquitetura contemporânea
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3 respostas para Morte e Vida do Cinema de Rua

  1. JOTA disse:

    É estão acabando com tudo mesmo, aqui em são paulo deveriam soltar uma bomba igual a de hiroshima.

  2. David Pennington disse:

    Que é isso Jota, sem essa de bombas. O Belas Artes fechou por razão de não ter público que o mantenha. Você poderia começar um movimento ara fundar um cinema de arte em São Paulo, por meio de um grupo de acionistas-beneméritos dispostos a mantê-lo! Abs, David

  3. David Pennington disse:

    Essa fotografia do Luis Florence fala por sí mesmoa!

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