A novidade do cotidiano


Suppose design office, Residência em Koamicho, Hiroshima, 2009.
suppose.jp

Por Clévio Rabelo

Imagens sempre banhadas de luz. Essa é a primeira impressão que fica dos inúmeros projetos do escritório japonês Suppose Design Office. Sua obra de recentes dez anos vem se destacando na disputada e impressionante cena da arquitetura do país oriental que desde a primeira visita de Frank Lloyd Wright em 1905, chama a atenção do ocidente pelo amálgama de memória e modernidade, natureza e cultura, fleuma e movimento, desafetação e tecnologia e outros tantos adjetivos.

O escritório é figura mais conhecida em blogs de arquitetura, mídia atualmente significante na divulgação da arquitetura contemporânea internacionalizada. Antes disso, entretanto, começou a ganhar espaços nas revistas japonesas menos conhecidas a partir de 2003, e em livros como Japan Houses, Compact House ou 150 Best House Ideas. A aparição nestas compilações evidencia o principal programa trabalhado no escritório: as casas unifamiliares. Seu portifólio exibe 57 exemplares do tipo e esse texto pretende apenas apresentar um trabalho que está começando.

O Suppose é formado pelo arquiteto Makoto Tanijiri, japonês de apenas 37 anos, para quem o destino da arquitetura é procurar por algo novo e fresco, a ser retirado, no entanto, das exigências e permanências de nossa “vida ordinária”, familiar e habitual. Viver a tradição seria alguma coisa menos ritualística e solene, e mais algo resultante das batalhas diárias dos humanos pela sobrevivência. Nelas residem, também, as chances de mudança.

À parte dessa espécie de profissão de fé, a palavra escolhida por Tanijiri para nomear seu trabalho é a meu ver particularmente interessante: a “suposição” é o único caminho válido para a arquitetura, pois sendo esta uma decorrência da vida, dela nada podemos esperar de final e assertivo. Existimos o tempo todo procurando chegar a lugares que apenas imaginamos conhecer, daí a necessidade fatal de nos agarrarmos à concretude do cotidiano, única utopia possível hoje. Projetar, mais que desejar, é estabelecer hipóteses: o partido que concluímos é sempre uma das possibilidades entre um conjunto enorme de outras probabilidades (sítio, cliente, orçamento, humor) ordenadas momentaneamente. Assim, suas residências construídas têm um denominador comum de sistemas de plantas heterodoxos e muito abertos para a luz natural (em algumas fotografias é difícil mesmo entender que espaços são cobertos ou não), mas nunca uma tipologia ou escolha de materiais que seja recorrente.
Tais jogos de luz e planos é a própria ferramenta com a qual o escritório busca a novidade do cotidiano. “[Tanijiri] quer explorar algo novo mas familiar a vida humana.” A pesquisa do escritório é de lançar suposições sobre o modo de se habitar as cidades do interior japonês (o site mostra apenas duas casas em Tóquio).

Os trabalhos residenciais do Suppose lidam com os conhecidos limites de área disponível no país, mas tal dificuldade tem se revertido, na verdade, em ricos procedimentos projetuais. Sempre à procura de uma maneira diferente de iluminar o interior de seus prismas, sem que para isso sejam necessários recuos nos lotes, as plantas dessas casas são constituídas de maneira pouco convencionais, e repetidas vezes têm se utilizado de pequenos pátios internos, rasgos zenitais os mais variados, estruturas verticais como escadas desenhadas a partir da mínima interferência visual. Nos trabalhos mais recentes, esses prismas que compõem a volumetria principal são soltos do chão pela estrutura e deixam a luz penetrar pela base do solo, no qual se constroem pavimentos semi-enterrados de grande efeito interior/exterior.

Não falemos de minimalismo, palavra demais desgastada algumas décadas atrás ao tentar designar arquiteturas como a do também japonês Tadao Ando, mas um fato a ressaltar no trabalho do Suppose é a simplificação dos elementos arquitetônicos e decorativos das obras. A cartela de cores é reduzida, assim como os materiais e acabamentos (geralmente brancos, negros, cinzas e amadeirados), tanto dos espaços internos quanto dos móveis que os povoam. Se a forma resulta diferenciada, é na medida em que tais articulações de materiais se mostram necessárias para a formular a hipótese que a casa quer lançar em seu sistema.

As já tradicionais torções dos volumes da arquitetura contemporânea são bastante raras na arquitetura de Tanijiri, e as fragmentações da forma geralmente se dão como soluções funcionais dos partidos, a fim de proporcionar importantes entradas de luz, ruas internas aos edifícios, amplos pés-direitos, sem de maneira alguma implicar em falta de coesão.

A arquitetura japonesa contemporânea é constantemente muito bem sucedida nos seus esforços de organizar partes em uma unidade maior. Os ingredientes primordiais quase sempre são a geometria e procedimentos de abstração que, como considerou Irigoyen ao escrever sobre Wright e o Japão, facilitam a “simplificação através da eliminação do insignificante”. No trabalho residencial do Suppose, a particularidade é menos no trabalho sobre  a forma a priori, ou nos sistemas construtivos, mas na pequena revolução que pode ocorrer em nossa vida doméstica através de uma sempre nova escolha do que se é significante ao habitar. Estuda diferentes simplificações, criando um quadro de suposições, de onde pouco a pouco se sobressaem novos e inventivos valores.


Suppose design office, Residência em Koamicho, Hiroshima, 2009.
suppose.jp


Suppose design office, Residência em Hiroshima, 2008.
suppose.jp


Suppose design office, Residência em Fukuoka, 2009.
suppose.jp


Suppose design office, Residência em Fukawa, 2011.
dezeen.com


Suppose design office, Residência em Fukawa, 2011
dezeen.com

Bibliografia:

– “House in Fukaya by Suppose design office”, In. “Dezeen”
http://www.dezeen.com/2011/01/04/house-in-fukawa-by-suppose-design-office/, acessado em 21/03/2011, às 9:00.
– Irigoyen, Adriana, “Wright e Artigas: Duas Viagens”, São Paulo, Ateliê Editorial, 2002.
– suppose.jp
acessado em 21/03/2011, às 9:00

 

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Sobre revista veneza

Revista de arquitetura contemporânea
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Uma resposta para A novidade do cotidiano

  1. Polly Sjobon disse:

    Resultado óbvio da modernidade e sua base de transformação que em detrimento da tradição legitima esta busca por novos e inventivos valores [sic]. Um belíssimo trajeto no qual nos interessa menos a linha de chegada e mais a eterna experimentação.

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