Vista do Porto


Porto Alegre, vista do bairro da Praia de Belas a partir da Usina do Gasômetro.
Foto do autor.


Porto Alegre, vista do centro a partir do edifício da Fundação Iberê Camargo.
skyscrapercity.com

Por Rafael Urano Frajndlich

Publicado em tantos países, o edifício da Fundação Iberê Camargo hoje tem ares de cosmopolitismo que mascaram o caráter aventuroso desta obra de Álvaro Siza. O arquiteto português não conhecia nem a obra de Iberê Camargo, nem Porto Alegre, quando fechou o contrato para fazer o prédio que conteria o espólio do artista de Restinga Seca. Dentro de uma lista de notáveis profissionais chamados para orçar um novo projeto para a Fundação, Siza foi um dos poucos que se declarou imediatamente interessado. Este seu primeiro projeto no Brasil foi feito em moldes praticamente artesanais, com o titular da firma vindo ao país a cada dois meses, decidido a vistoriar cada acabamento (a maior parte vinda de fora) e cada etapa da construção.

Qualquer arquiteto que ganhar certo renome eventualmente terá de lidar com projetos em terras estrangeiras. Siza, decano da Universidade do Porto, tendo sob sua sombra mais de uma geração da contemporânea arquitetura portuguesa, já estava habituado a ter seus projetos implantados em várias partes do globo. A cidade de Porto Alegre poderia ser mais uma, se não fossem alguns aspectos que a fazem particular. Primeiro, o terreno da Fundação é muito distante do centro da cidade; o bairro de Praia-de-Belas está em uma parte bem consolidada da orla do Rio Guaíba, sem ter entretanto aquela densidade que Siza encontrara alhures. Tal distanciamento não significa que a cidade esteja oculta: a posição privilegiada nas margens do Rio Guaíba permite um contato especial com Porto Alegre pela grande distância: a vista é muito privilegiada, podendo-se vislumbrar o skyline da capital gaúcha, com alguns de seus marcos: a torre da Usina do Gasômetro, o Palácio da Justiça, dos arquitetos modernistas Corona e Fayet. Sobretudo, o primeiro contato de Siza com a cidade foi concomitante com o da obra de Iberê Camargo.

O crítico Guilherme Wisnik foi o primeiro a apontar o elan existente entre o partido do projeto de Siza e alguns traços matriciais que permanecem no artista gaúcho. De acordo com Wisnik, tal diálogo se estabelece na “solução que demarca mais fortemente a presença da construção na paisagem, valendo-se de um indisfarçável expressionismo formal.” O crítico subscreve à leitura de Iberê Camargo como um artista de temas expressionistas, denominador comum de uma obra tão variada, presente em seus trabalhos como os “Carretéis”, o painel na Organização Mundial de Saúde ou as telas sombrias de seus “Ciclistas”. Nesse sentido, a solidez da torre de Siza não só enfrenta Porto Alegre com sua presença na paisagem, como a faz citando a força plástica das formas de Iberê Camargo.

Malgrado a perspicácia da visão de Wisnik, é preciso estar atento para mais um aspecto incidindo nesta leitura simultânea que Siza faz do pintor e de Porto Alegre. Iberê Camargo não chegou a concluir seus estudos no curso de Técnica de Arquitetura do Instituto de Belas-Artes, no Rio Grande do Sul, mas é fato que ele entrou em contato com um modo especializado de tratar a imagem das cidades. Nas primeiras décadas de sua carreira é possível encontrar uma produção de desenhos de paisagens: Restinga Seca, Torres e a própria capital gaúcha. Deixando o Rio Grande do Sul, filiado ao Grupo Guignard, Iberê retrata o Rio de Janeiro, seus bairros históricos, como a Lapa. Na Itália, depois de entrar em contato com o ateliê de Giorgio De Chirico, desenha Roma, Veneza e outras cidades do país.

Estas obras de arte nos servem para revelar que Iberê Camargo tinha, ele mesmo, uma interpretação pictórica própria da cidade de Porto Alegre, que muito marcou a sua formação:


Iberê Camargo, Gasômetro, 1942
Fundação Iberê Camargo. iberecamargo.org

“Eu nunca encontrei uma região tão desértica – deserto no sentido de solidão – como o Rio Grande do Sul,” dizia Iberê Camargo, “essa linha reta, essa linha metafísica, é uma linha que não tem fim, e uma linha, é aquele ir sempre que não tem fim, e sempre o que não tem fim para nós é um segredo, é alguma coisa que é misteriosa, que nós não podemos alcançar.” Um artista tão conhecido pelos quadros densos, pela solidez de suas telas, onde as pinceladas carregadas deixam pouco ou nenhum espaço para contornos, fala dos pampas escrevendo sobre linhas. Tais palavras têm correspondência em sua obra: quando representa o Gasômetro da capital gaúcha em 1942, o artista apresenta com grande massa de grafite o edifício da Usina, desenha em contraste linhas bem marcadas representando a orla do Guaíba.

As paisagens volta a ocupar o gaúcho no fim de sua vida, pelos anos noventa, quando o autor residia novamente em Porto Alegre. De acordo com Icleia Borsa Catani, curadora de uma exposição no Instituto sobre esta produção tardia, “no começo de sua carreira, as paisagens eram representações de lugares reais observados pelo artista; nas pinturas de seus últimos anos de vida, elas foram transformadas em signos.”


Iberê Camargo, Sem título, 1990.
Fundação Iberê Camargo. iberecamargo.org

A paisagem tornada símbolo acompanha uma redução da linguagem dos desenhos a linhas esparsas. O mesmo gasômetro aparece em suas noções gerais, um jogo de linhas e pequenas janelas. “as paisagens”, segundo Catani, “estão sinalizadas por indícios: algumas árvores, uma linha de horizonte, planos de cores diversas nas partes superior e inferior da tela, fazendo-nos intuir a representação do ‘céu’ e da ‘terra’…”

O Gasômetro fazia parte daquela imagem dos equipamentos da orla do Rio, compondo com o complexo do porto (ainda ativo), que hoje permanece como referência aos usos antigos da cidade, uma série de silos e armazéns. Nos anos noventa parece que o Gasômetro evoca não uma paisagem existente, mas o fantasma de uma cidade antiga. Se os seus “Ciclistas” e “Idiotas” guardam em seus rostos e formas um aspecto fantasmagórico, a capital gaúcha é o limbo por onde circulam estes vapores.

Álvaro Siza é famoso pela sua meticulosa leitura do lugar onde se inserem seus projetos. Desta vez o arquiteto teve de medir a sua visão da cidade de Porto Alegre com a de Iberê Camargo. Este é o diálogo que está estabelecido entre os dois artistas: mais do que citação de traços gerais da pintura de Camargo, uma visão própria da cidade está em discussão. É inegável que as pequenas janelas que Siza criou em seu monolito branco requadram justamente aquela imagem longínqua do centro de Porto Alegre, esquecendo o lado sul da orla do Guaíba e dando papel de protagonista ao centro histórico e à chaminé do gasômetro. Siza deliberadamente inverte os papéis: em seu museu, a cidade é que cita a obra de Iberê Camargo. Sua posição de farol periférico busca mostrar à população gaúcha uma cidade outra, que só aparece nos registros antigos, nos mapas de época e nas gravuras de desbravadores.

Não bastaria resumir tal colóquio nas aberturas do prédio da Fundação. O edifício tem sua inserção eloquente na paisagem, com sua torre em que por uns ângulos parece compacta e por outros mais esparsa, dependendo da posição que se vê as rampas soltas do volume principal. O embasamento enterrado, com suas curvas retorcidas, seus balanços e janelas altas, colaboram para que a luz natural tinja de modo dramático o concreto branco, em uma profusão de sombras que certamente lembram – como apontou Wisnik – os quadros expressionistas do autor.


Iberê Camargo, Estudo para cinco carretéis, 1960.


Álvaro Siza, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, 2008.
alvarosizavieira.com


Álvaro Siza, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, 2008.
alvarosizavieira.com


Porto Alegre, silo e armazém.
Foto do autor.

Siza parece, entretanto, dar lugar também a um ruído de contramão nestas massas, citando os desenhos em linha de Iberê. Tal escolha aparece em uma escala mais minuciosa do projeto, nos detalhes construtivos. Circular fora do prédio pode revelar guarda corpos que são barras metálicas justapostas como se fossem um gesto. Os arremates em pedra das muretas de proteção nas rampas do museu tem uma sobra na sua chegada com a parede. Tal ‘sobra’ aparece também no encontro entre a laje da chegada no edifício e o começo da torre de concreto. As luminárias são chapas metálicas dobradas, uma linha extrudada.

Álvaro Siza – conscientemente ou não – vê um aspecto importante da relação de Iberê Camargo com Porto Alegre pelos seus desenhos a grafite, singelos, onde a paisagem se desfaz diante dos olhos. O terreno da Fundação, longe do centro, precisava ser um ponto de referência sólido para a paisagem, como se quisesse ser tema das pinturas a distância de outros artistas. O prédio de Siza pode ser visto com algum esforço da praia do Gasômetro, sugerindo uma comunicação do centro com a periferia (as rampas não se tornam linhas quando vistas assim de tão longe?) . Dentro do prédio, no entanto, passando por todos os seus detalhes, aquele monolito sugere sua evanescência, seu tornar-se linhas de grafite. Os usos desta tensão deixa claro que assim como os silos, o prédio de Siza quer integrar esta memória do porto, do Rio Guaíba – mostrando a sua própria transitoriedade. Assim, a Fundação demonstra uma vontade de integrar não a paisagem atual da cidade, mas aquela antiga, dos olhos de Iberê Camargo, como se se pudesse nele passear não por suas telas, mas pela própria maneira do pintor ver o mundo.


Álvaro Siza, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, 2008.
Linhas do detalhamento.
Foto do autor.


Álvaro Siza, Matriz de Gravura feita em Oficina na Fundação Iberê Camargo.
Foto do autor.

Bibliografia:

Para mais informações sobre o edifício da Fundação Iberê Camargo:
-Basulto, D. “Fundação Iberê Camargo in Porto Alegre, Brazil”, In. “ArchDaily”
http://www.archdaily.com/2769/fundacion-ibere-camargo-in-porto-alegre-brazil-alvaro-siza/
Acessado em 13/03/2011, 9:20.

– Cattani, I. B. “Paisagens de dentro. As últimas pinturas de Iberê Camargo”, exposição, In. “Fundação Ibere Camargo”, http://www.iberecamargo.org.br/content/exposicoes/texto_paisagens.asp. Acessado em 13/03/2011, 9:20.
-“Nasce uma obra de arte”, In. “Zero Hora”, 30 de maio de 2008.
– Siqueira, V. B., “Iberê Camargo: Origem e destino”, São Paulo, Cosac & Naify, 2009.
-Siza, A. “Um projeto arquitetônico nunca está acabado”, Entrevista concedida à Gabriela Motta, In. “Revista Bravo!”, http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/artesplasticasmateria_271630.shtml. Acessado em 13/03/2011, 9:20.
– Wisnik, G. “Hipóteses acerca da Relação entre a Obra de Álvaro Siza e o Brasil”, In. “Álvaro Siza Redux”, São Paulo, Cosac & Naify, 2008, pp. 47-54.

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9 respostas para Vista do Porto

  1. José Renato Oliveiras disse:

    Belíssimo texto e leitura da obra, ou melhor, das obras destes artistas e seus desígnios.

  2. Monica Junqueira de Camargo disse:

    Leitura interessante da imbricada relação dos dois artistas com a cidade de Porto Alegre, que Siza soube explorar com precisão. Crítica precisa em texto agradável.

  3. Roberto Frajndlich disse:

    Texto interessante e gostoso de ler. Detalhes impressionantes do autor que mostra uma grande sensibilidade quando da comparação do arquiteto e do artista e de suas respectivas obras que escapam aos olhos de pessoas leigas como eu.

  4. Cláudia Hoffmeister disse:

    O texto é belíssimo e cheio de inspiração. O Autor utiliza um tom poético em sua análise, fazendo com que o leitor fique maravilhado, principalmente em se tratando de um portoalegrense.

  5. Mário Henrique Simão D'Agostino disse:

    Leitura sutil, muito perspicaz! O labor poético do autor propicia bela reflexão sobre os entremeios da materialidade pictórica e arquitetônica das obras de Iberê e Siza, na qual, por um sofisticado perfilar de entreolhares, deslindam-se o mais imaterial, metafísico ou aurático guardado na cidade de Porto Alegre.

  6. Pedro Murilo Freitas disse:

    É, notável. Há o que dizer diante dos elementos. De fato, os lugares têm um silêncio que custamos a ouvir. Um silêncio infantil, meio identitário, que nos põe no mundo e diz quem somos. Poderíamos até chamá-lo de “memória”, mas o desgaste do tempo – propriamente – fez essa palavra tão insignificante. Essa talvez seja a natureza do artista-arquiteto: tornar a fazer ver o signo. Já ser o signo é para poucos.

  7. Sonia Porto Machado disse:

    Como é tênue a linha dos carretéis que separam Siza e Iberê. Ou seria melhor dizer, como é tênue a linha dos carretéis que unem Siza e Iberê? E aquilo que antes havia um oceano a separa-los é visto, agora, em duas linguagens que expressam as mesmas paisagens e linhas. Dois artistas que se unem através de um jovem arquiteto paulista que diz com poesia ( “fala dos pampas escrevendo sobre linhas”) aquilo que Iberê dizia com cores e linhas e que Siza diz com concreto branco.
    Seu artigo é uma declaração de amor a Porto Alegre, a Iberê e a Siza. E assina junto as palavras de Iberê, “Nunca toquei a vida com a ponta dos dedos. Tudo o que fiz, fiz sempre com paixão.” Obrigada Rafael pelo lindo presente a Porto Alegre.

  8. gianni disse:

    suave, sutil e com precisas economias de palavras, um prazer lê-lo.

  9. Um lindo texto, muito sensível e esclarecedor sobre as relações entre a criação arquitetônica de Siza e a artística de Iberê. Ele traz à luz as relações com a cidade de Porto Alegre, tanto para o arquiteto como para o pintor. A seleção de imagens é igualmente especial, pois por elas se transita do geral ao particular, expondo o prédio ao longe e às margens do Guaíba até a proximidade com alguns detalhes da construção, como o desenho das luminárias elaborado pelo próprio arquiteto. Trata-se do olhar sensível do autor, o que convida ao aprofundamento da percepção de outros destas duas criações valiosamente entrecruzadas.

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