Dormir no avião

Eero Saarinen, TWA Flight Center, Nova York, 1962
nyc-architecture.com

Por Rafael Urano Frajndlich

 

Nos últimos dias, vários jornais dos Estados Unidos divulgaram a intenção de se converter o antigo terminal de passageiros da TWA, desenhado por Eero Saarinen, em um hotel. Na realidade, o edifício não conteria quartos e lavanderias, mas a recepção e lobby do empreendimento. A notícia rapidamente se espalhou pela imprensa e ganhou valor de polêmica entre os sites de arquitetura. O ArchDaily, site geralmente dedicado a divulgar projetos, desta vez não se furtou ao comentário crítico: “Vários desafios de projeto vão ter de ser respondidos de maneira sensível, com a integração deste novo hotel com o velho terminal.” Questionou-se ainda outros problemas de projeto, como a abertura das janelas, se serão mantidos os tubos de conexão do prédio original, afinal atestando: “Isto em si não coincidiria exatamente com a romântica perspectiva que Saarinen imaginava.”

Apesar da gare contar com a proteção dos orgãos nova-iorquinos de preservação, a apreensão da mídia especializada é justificável. O edifício feito como um marco no aeroporto de Idlewind (hoje JFK) nos prósperos anos sessenta, teve diversas reviravoltas nesta última década de ’00, onde esta mudança de programa não é senão mais um capítulo. Em 2001 a TWA definitivamente fechou suas portas. Em 2008, abandonado e com más condições de conservação, o edifício passou por um restauro durante as obras de construção do Terminal 5, hoje o maior do aeroporto, que abriga a empresa-prodígio Jet Blue.  A grande gare de recepção, com suas cúpulas de concreto, passou por uma ampla restauração pagando um preço alto: o edifício de embarque e desembarque dos aviões, chamado de Ramp Building, parte do projeto inicial de Saarinen, foi demolido para dar lugar às modernas instalações do novo terminal. A gare de recepção restaurada, por sua vez, não se adaptou bem à simbiose com o novo prédio: os novos regulamentos de segurança aeroportuária pós 9/11 e o fluxo muito intenso de passageiros da Jet Blue relegou o prédio mais uma vez ao desuso. Buscando recuperar o custo de mais de U$$ 700 milhões da qual foi investidora majoritária, a Autoridade portuária nova iorquina veio com a idéia de oferecer o terminal para o empreendimento de um hotel de luxo no meio do aeroporto JFK, tendo suas instalações como principal atrativo, tornando-o “talvez a mais estilosa e arrojada recepção de um boutique hotel que sirva um mercado de viajantes muito especiais”, segundo nota. Não obstante a viabilidade da conversão, resta o mistério de onde se implantar os 150 quartos do novo complexo, se uma pequena faixa de pouco mais de sessenta metros separa o Terminal 5 da gare da TWA.

A proposta da Autoridade portuária pode soar um tanto aleatória – e um tanto nociva ao prédio – como uma medida desesperada para salvar o terminal TWA da pecha de elefante branco dentro do enorme complexo de viagens aéreas que se tornou o JFK. A despeito das complicações práticas (e de projeto), se mudarmos do ponto de vista do conflito entre aviação moderna e patrimônio histórico para outro, mais sutil, da maneira como as pessoas passam as horas no aeroporto, pode-se ver que a idéia de fazer um hotel que utilize a estrutura de Saarinen está bem inserida em uma estranha tendência internacional.

Dormir em aeroportos inicialmente era associado aos percalços dos atrasos e cancelamento de voos – nas épocas de pico de viagens é comum encontrar fotografias nos jornais de turistas dormindo nas cadeiras de espera das salas de embarque. Nos últimos anos, com a banalização das viagens aéreas, tomar aviões para se despachar em diferentes lugares do globo no mesmo dia se tornou corrente para diversas categorias de homens de negócio. Na arquitetura, os integrantes do jet-set freqüentemente se queixam das vezes em que vistoriaram obras de seus projetos em diferentes países no mesmo dia.

O surgimento de uma singular ‘vivência’ nos aeroportos justificou em grande parte a sua transformação em verdadeiros complexos de compra. Depois de lojas, cinemas e restaurantes, os terminais contam hoje com aluguel de quartos dentro de suas instalações. Tratam-se de corredores específicos dentro do complexo aeroportuário onde se providenciam salas com beliches e serviços gerais como internet, geladeira, etc.. Em Paris tais câmaras são distribuidas pelos salões de embarque, como volumes autosuficientes, desenhados pelo escritório russo Arch Group. O design destas caixas – chamadas Sleepbox – não procuram escapar do rótulo de cápsula: apesar dos acabamentos em folhas de madeira e da iluminação cuidadosamente regulável tornarem o ambiente aprazível, as suas dimensões não deixam que se esqueça que se está dentro de um salão de embarque. Em algumas perspectivas eletrônicas, dentro do quarto com suas luzes apagadas pairam os números de um relógio digital, para não se perder a hora.

Tais iniciativas teriam um valor literário se pouco a pouco não estivesse surgindo um nicho de mercado de luxo dentro delas. Em Londres e Amsterdam, tais salas são vendidas como uma opção diferenciada. “Tudo o que você esperaria de um hotel de luxo em um espaço pequeno,” diz o anúncio de suas instalações na Internet. Localizados em uma área reservada do aeroporto, as suítes realmente dão conta de mais do que uma espera confortável para o próximo voo.

O hotel onde o terminal TWA figuraria como lobby insere-se neste contexto. Mais e mais, a idéia que as horas passadas no aeroporto podem ser gastas em atividades privadas parece-se uma boa idéia. Desta vez, não se trata de cápsulas ou quartos suntuosos: o apelo é a um público restrito, trata-se de uma instalação de altíssimo padrão no meio de terminais de embarque – e não mais dentro deles Saarinen desenhou em formas tão aerodinâmicas seu terminal porque queria traduzir a ‘emoção de viajar’. O edifício na época foi comparado a um pássaro, ou a ‘correntes de ar fossilizadas’. O arquiteto finlandês negava qualquer figuração, mas o fato é que a sua alusão a expectativa da viagem tinha um certo mimetismo com as coisas que alçam vôo. Competia majestosamente com aquela geometria metálica dos aviões. Substituía a incapacidade de voar com a então incomum leveza do concreto armado em curvaturas aerodinâmicas.

Viajar de avião já não possui resquício desta tal ‘emoção’. Falecido em 1961, Saarinen não só nunca viu sua obra concluída, como também perdeu os problemas resultantes da aviação de carreira contemporânea: o caos aéreo, os sequestros de aviões, a lotação dos aeroportos, o terrorismo, a crise da infraestrutura… O voo tornou-se tão banal que o luxo agora volta-se para o lastreamento em terra: bom é não viajar. O TWA, virando um hotel, apesar do contra-senso de suas asas, se tornaria atual sem dar nenhuma margem à nostalgia: como negação da vontade de voo.

Em Estocolmo um hotel foi construído dentro de um antigo Boeing 747. A ala de passageiros foi dividida em quartos, e a suíte principal fica na cabine. O fluxo de pessoas não se limita aos hóspedes: o lugar é aberto para visitantes que querem entrar no avião sem ter de decolar. O terminal TWA estaria inserido nesta senda da nova arquitetura aeroportuária. O avião, símbolo tão caro aos visionários do princípio do século XX (pense-se em Corbusier e seus croquis feitos do avião), ganhou um valor maior quando está lastreado do que quando está no ar, resignadamente levando as pessoas para suas reuniões, para as cidades que se tornam cada dia mais parecidas.

No filme Blow up, Antonioni mostra o seu protagonista, um fotógrafo, comprando uma hélice em um antiquário, para deixá-la como escultura no seu estúdio. Era um modo de torná-la atual sem restabelecer sua antiga função. O absurdo de dormir em aviões e acordar na cidade de origem é um protesto sutil da cultura contemporânea, que a Autoridade Aeroporturária nova iorquina, sem o saber, inscreveu o terminal de Saarinen.


Eero Saarinen, TWA Flight Center, Nova York, 1962
Gensler, Terminal 5, 2008
gensler.com


Arch Group, Sleeping box, 2009

archgroup.org


Jumbo Hostel, 2009
aftonbladet.se

Bibliografia

– “The dynamics of Shape”, In. “Design Quaterly”, n. 64, 1966, pp. 1-2+4-31.
– Furuto, A. “TWA Terminal to transform into a boutique hotel”, In. “Archdaily”,
http://www.archdaily.com/110816/twa-terminal-to-transform-into-a-boutique-hotel/. acessado em 21/02/2011, 1:00.
– “Gensler: TWA Terminal and JetBlue Airway’s Terminal 5”, In. “A+U”, n. 474, Mar. 2010, pp. 10-19.
– Johnston, G. “TWA Terminal Could Be New York’s Next ‘Boutique’ Hotel”, In. “Gothamist”, 07/02/2011 
http://gothamist.com/2011/02/07/twa_terminal_could_be_new_yorks_nex.php
acessado em 21/02/2011, 1:00.
– Lack, K. S. “TWA Terminal makes endangered list”, In. “Architecture”, v. 92, n. 8, Ago. 2003.
– Papademetriou, P. “Coming of Age: Eero Saarinen and Modern American Architecture”, In. “Perspecta”, v. 21, 1984, pp. 116-143.
-Perez, A. “AD Classics: TWA Terminal/Eero Saarinen”, In. “Archdaily”, http://www.archdaily.com/66828/ad-classics-twa-terminal-eero-saarinen/
acessado em 21/02/2011, 1:00.
– Saarinen, E. “Eero Saarinen”, In. “Perspecta”, v. 7, 1961, pp. 28-42.

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