O discurso do invólucro: O edifício garagem de Herzog & De Meuron e São Paulo


Herzog & De Meuron. Lincoln Road 1111, Miami.
Iwan Baan. http://www.iwanbaan.com

 

Dizem que mais tarde a onça pariu uma ninhada enorme. Teve filhos e filha. Uns machos outros fêmeas. Por isso que a gente fala ‘um forde’ e fala ‘uma chevrolé’.
Mário de Andrade, Macunaíma

 

Por Rafael Urano Frajndlich

O projeto de Herzog & De Meuron em Miami, o Lincoln Road 1111, é peculiar no que concerne o resto da obra do escritório. Sua arquitetura baseada na exposição da estrutura, no jogo de balanços dos planos horizontais delgados dos tabuleiros de generosa altura com pilares de diversas formas, substituem a expressividade das membranas que desenham a fronteira entre interior e exterior comum nas soluções da firma. O térreo tem uma interface peatonal com lojas diversas, enquanto que os andares superiores são eminentemente ocupados por vagas de garagens. O edifício é articulado com a reforma de um prédio existente de escritórios, e dentro dele existe uma pequena porcentagem do prédio para uso das pessoas, mas o protagonista verdadeiro de Lincoln Road é visível: os carros.

Nos últimos oito anos, o H&DM vem montando um portfolio voltado para projetos sobretudo institucionais, como museus, teatros, centros culturais. Tal aumento deste tipo de programa se pode explicar pelo impacto de um projeto como a Tate Modern em Londres, de 2000, cujo sucesso deu ao escritório suíço uma orientação programática involuntária. A arquitetura de invólucros, como esta garagem, está presente em trabalhos dos suíços principalmente nos primeiros decênios de sua existência, em seus contratos com a fábrica Ricola e com a companhia ferroviária da Basiléia, firmados nos anos oitenta.

Tanto em um como no outro, a superfície da fachada acabou atuando como diferencial. Na comissão para a linha férrea, o projeto consistia em duas torres com algumas salas de operação e grande parte reservada à áreas técnicas. A planta tem uma resolução banal com um núcleo de circulação próxima a uma lateral do prisma – o projeto se tornou importante para o escritório pelo delicado movimento das placas de cobre: um relevo contínuo revela uma parte do volume de concreto e suas aberturas, fazendo da pele –  e da luz que escapa pelas suas frestas, um delicado farol. Situado em uma ponte que cruza a linha férrea, o edifício paira como uma referência de mudança de escala entre os edifícios do entorno da linha (a torre segue o gabarito dos edifícios da quadra oposta), e a linguagem metálica dos trens e das viagens regionais.

Apesar da dificuldade em estabelecer paralelos entre os dois tipos de edifícios invólucros, já que um continha áreas técnicas restritas (maquinário ferroviário), e o outro, apesar de ser uma área que requer atenção dos usuários, é aberta ao consumo (de vagas). Ademais, a abertura da garagem também pode ser explicada pela liberdade legislativa de uma cidade sem temperaturas extremas no inverno, permitindo a existência de um prédio sem o cladding. Forçoso destacar, no entanto, o efeito de marco na paisagem, citando o meio de transporte ao qual seu uso ampara. Lincoln Road se tornou uma prateleira próxima para o sempre controverso automóvel que, a despeito das contínuas acusações de nocividade à vida das grandes cidades, retêm ainda na América sua posição privilegiada nos seus planejamentos de sistema de transporte, e seu forte apelo no campo do consumo. Mais: este armazenamento é desenhado emulando a estrutura onde o carro está no auge de seu movimento: a descrição de Herzog, como uma “escultura tridimensional urbanística”, parece acertada na maneira como o prédio parece-se uma instalação, cujo tema seriam os carros e Miami. Neste sentido, os suíços impõem um olhar estrangeiro à relação que os americanos têm com seu meio de transporte favorito.

Uma arquitetura que ampara tanto de sua retórica na forma de seus pilares e na elegância de suas lajes nos seduz a ver semelhanças visuais com os projetos de Reidy e Niemeyer, tentando-nos a ver citações dos suíços aos modernistas brasileiros…Entretanto, a referência feita é outra: os pilares em diversas formas, a ausência de vigas no sistema estrutural, faz-nos inferir que o que se tentou fazer foi uma justaposição radical de viadutos. Citou-se a engenharia rodoviária americana, com suas freeways, suas alças, rampas e estruturas variadas. A beleza estrutural é cenográfica no projeto de H&DM, criando uma ‘ambientação’ do habitat dos carros – uma abortdagem muito distante dos pórticos bem ritmados do MAM do Rio, ou da plástica estrutural das obras de Brasília.

A referência do H&DM à arquitetura brasileira é mais próxima dos edifícios na cidade de São Paulo, onde o escritório desenvolve o projeto de seu polêmico Centro Cultural, no bairro da Luz. Falando para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Jacques Herzog diversas vezes chamou a cidade de “laboratório do modernismo”. Seus slides mostraram o edifício de Lina Bo Bardi para o Sesc Pompéia, depois o Masp, chegando à cobertura única de Artigas na FAU… É provável que o autor conheça muito pouco de Rino Levi, pois lamenta-se que a Garagem América, feita na Rua Riachuelo, não tenha sido citada no seu rol de refereência com seus andares sem fechamento, ali por uma questão financeira, onde os carros pendiam das lajes.

Malgrado o H&DM não ter sido chamado para a cidade para fazer um programa invólucro, é possível que sua abordagem ao projeto na Julio Prestes seja baseada neste acervo técnico, mais de que em suas casas culturais e museus. Herzog fez questão na sua explanação para os estudantes de arquitetura destacando que não se pode fazer um projeto em terras estrangeiras sem procurar, despreconceituadamente, lê-la: Ao falar de Pequim, falava da vida nas ruas, dos chineses fazendo Tai chi. Sobre Paris, exaltou a beleza de seu traçado, seus eixos. São Paulo, por sua vez, é vista “…como uma selva de altos edifícios espalhados por todas as partes e muitas vezes é difícil encontrar, digamos, uma lógica ou orientação.” Partindo deste lugar-comum, Herzog preferiu fazer – a maneira de sua garagem em Lincoln Road – um edifício sem peles e fechamentos, deixando expostos os seus usos na paisagem. O acesso se dá por duas enormes rampas de pedestres, laçadas aos terrenos lindeiros – a Praça Júlio Prestes e uma área de desapropriação na parte posterior ao teatro. Ainda é cedo para saber se tais decisões se manterão, mas elas se parecem bastante com os jogos formais de uma arquitetura que o H&DM primeiramente utilizou para estocar veículos.

O edifício articula três programas com um entremeio de lajes que se interconectam formando um jogo entre os programas da escola de dança, música e auditórios. A circulação é baseada em largas rampas, que ligam vários níveis, sendo que único fechamento seria em vidro. Não existe ambiente que esteja na borda das lajes, fazendo de todo o complexo uma teia de varandas, onde todo passeio é imerso na copa das árvores, e salas de ensaio. Esta opção de abrir todo o programa fez com que o escritório, mesmo no estágio preliminar de projeto, já desse diretrizes sobre os guarda-corpos (pesados na barra horizontal para ter um mínimo de montantes) – afinal, são o mais próximo que o projeto terá de uma vedação. Nos primeiros estudos, a justaposição dos andares era muito radical, criando muitos vazios internos. Com o avanço dos desenhos, cada andar ganhou faixas de lajes, reforçando a diluição do edifício em seu entorno. Nas maquetes físicas, as pessoas se alternam por estes diversos andares, fazendo parecer uma galeria comercial gigantesca, onde a escala humana é estranha; a soma de programas muito grandes faz do teatro um projeto grande até para os padrões do escritório, e a decisão de ir contra toda compactação dos usos faz com que o complexo pareça, já neste estágio, uma grande fábrica reconvertida, um galpão reformado, uma garagem transformada em escola. O próprio estacionamento da Casa de Dança, no concept design, é resolvido em duas opções que reforçam esta impressão: em uma, uma torre nos moldes de Lincoln Road, na segunda, mais eloquente para nossas considerações, os carros ocupariam o topo das lajes de cobertura, unificando o programa tão variado do complexo no último andar, exclusivo para os carros.

Uma arquitetura de infra-estrutura pode ser relida em um complexo programa cultural? O edifício garagem de Miami tem em seus programas peatonais uma grande varanda para a cidade, onde os carros – mesmo no papel central – acabam por se tornar objetos a mais no ambiente. Talvez tal solução tenha parecido conveniente para São Paulo, para Jacques Herzog, na medida em que temos uma grande freeway que corte o centro da cidade de São Paulo e que fica disponível para passeio a pé nos domingos. O minhocão, junto com outras rebarbas do urbanismo eminentemente rodoviário de São Paulo, como a Praça Roosevelt, o Vale do Anhangabaú, o Terminal Bandeira, o Parque Dom Pedro II, parecem ser os verdadeiros referenciais de projeto do escritório estrangeiro, utilizados na busca do escritório em dialogar com os arquitetos paulistas. O fascínio de Herzog é com um paisagismo de prédios e de infra-estruturas precárias que caracteriza a cidade. Seu edifício cultural é o primeiro que procura com uma linguagem muito sincera expressar uma retórica reconhecendo e comentando a cidade como invólucro, como estocagem em meio a circulação. É lamentável que uma leitura assim tão interessante esteja inserida como parte de iniciativas tão historicamente nocivas para a cidade, e tão descuidadas no trato social como as que vêm sendo feitas no bairro da Luz. O contraste entre o cuidado de projeto do H&DM e o resto da intervenção urbana faz o Centro Cultural parecer uma cortina de fumaça. Resiste, entretanto, esta astuta leitura da cidade de São Paulo feita por profissionais de formação tão longínqua. Seu projeto é um eloquente comentário do nosso patrimônio construído como uma imagem da fábula de Cortazar, onde vive-se em meio ao tráfego estático de veículos.

 


Herzog & De Meuron. Central Switch Yard, Basiléia.
Asli Aydin. http://www.flickr.com/photos/asli_aydin/

 


Herzog & De Meuron. Lincoln Road 1111, Miami.
Iwan Baan. http://www.iwanbaan.com


Elevado Costa & Silva, o “Minhocão”, em dia de projeção.
Inês Bonduki.  http://www.flickr.com/photos/inesbonduki/


Herzog & De Meuron, Centro Cultural em São Paulo
Divulgação

Agradeço a gentileza de André Leal e da chapa do gfau 2010 “727.7” por dar acesso à transcrição da palestra de Jacques Herzog na FAUUSP em 2009, ainda não publicada.

Bibliografia:

–       BROOME, B. “House of Cars”, Architectural Record,
v. 198 n. 6, Jun. 2010, pp. 134-9.

–       CARPO, M. “Gli scaffali per la città/ City Shelving”, Abitare,
n. 506, Out. 2010, pp. 48-59.

–       El Croquis Herzog & De Meuron, n.60+84, 2000.
–       HUBER, D. e ROGIER, F., “The Hidden and the Apparent: Comments on the Work of Jacques Herzog and Pierre deMeuron”, Assemblage, n. 9, Jun. 1989, pp. 114-117.

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2 respostas para O discurso do invólucro: O edifício garagem de Herzog & De Meuron e São Paulo

  1. Polly Sjobon disse:

    No edifício garagem, as prateleiras com menor pé direito figurando com iluminação diferenciada, reforçam esta diferença. Sinto mais uma vez a referência ao espírito dissonante de Vilanova Artigas? Me parece que sim

    • Polly Sjobon disse:

      …ou quando do projeto de Miami ainda não estavam sob os efeitos do intercâmbio com São Paulo? Bom, denotam tensão de qualquer forma…

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